Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Salapeira-grande (Himantoglossum robertianum)

180mm e uma orquídea


Confesso que houve um tempo em que achava que fotografar flores não era coisa séria. Como sabemos, há vários preconceitos na fotografia de natureza e parece que também eu tinha sido apanhado por um deles. Como é óbvio, estou a falar meio a sério, meio a brincar. Fotografar flores, como descobri recentemente, pode ser do mais apaixonante que há. Uma das espécies responsáveis por me ter obrigado a voltar a ter uma objectiva macro e a comprar umas joelheiras de construção civil dá pelo nome de orquídea (família Orchidaceae). Nas minhas voltas habituais pelas terras do maciço calcário estremenho, no início da primavera, a visão que estas pequenas e delicadas flores proporcionam é realmente fabulosa, com as suas formas a destacar-se e a pintar de cor os campos de solo calcário.

As orquídeas são seres vivos realmente fabulosos. Sendo maioritariamente polinizadas por insectos, algumas delas chegam a imitar, na forma e no cheiro, as fêmeas desses bichos (vespas, abelhas e abelhões) para que os machos se aproximem delas e consigam a necessária fertilização. Procurem na internet por Ophrys e facilmente percebem o que quero dizer. No parque natural das Serras de Aire e Candeeiros, ocorrem quase metade das orquídeas conhecidas em Portugal, permitindo-me estar entretido entre Fevereiro e Maio à procura destas pequenas maravilhas.

E foi o que aconteceu neste Carnaval. Como sou pouco dado a pistolas e estalinhos, resolvi levar a objectiva macro, um flash e as joelheiras por uma volta ao Planalto de Santo António. A primeira orquídea a florir em Portugal é a Salapeira-grande (Himantoglossum robertianum), também conhecida por Orquídea-gigante por ser a maior que ocorre no nosso país. A sua época de floração vai desde a segunda metade de Janeiro até Abril e por esta altura já se vêem algumas nos caminhos onde passei. Na maior parte dos locais ainda estão muito pequenas, não passando dos 10-15cm de altura, mas perto da Serra dos Candeeiros, num local onde há sempre muitas, já haviam alguns exemplares com mais de 40cm de altura. Não é das minhas orquídeas favoritas – as Ophrys e as Orchis são muito mais bonitas – mas como já estava com saudades de as fotografar não enjeitei a oportunidade de o fazer.

Hoje em dia gosto de sair de casa apenas com uma objectiva e foi isso que fiz. A liberdade e criatividade que isso proporciona não tem igual, permitindo-nos uma maior comunhão com o sujeito e não com o material que está na mochila. A objectiva que trouxe comigo foi a Canon EF 180mm f/3.5L USM Macro. Para além disso trouxe um flash e um pequeno tripé para o mesmo. Gostava de partilhar convosco o resultado dessa saída. Eu não sou grande especialista em fotografia macro. Nem sei se o que vos apresento pode ser considerado macro, pois entendo pouco desse tipo de fotografia. Aquilo que vou partilhar convosco é apenas resultado de como eu gosto de fotografar esta espécie e das várias abordagens que fui tentado a fazer neste dia. E, como sempre, vou partilhar algumas dicas do que eu acho que resulta para mim neste tipo de fotografia.

Uma questão de perspectiva

Um dos maiores “erros” que vejo as pessoas fazer quando fotografam flores – comprovado nos vários workshops que dou na zona da Serra de Aire – é a posição com que abordam o sujeito. Na minha opinião, as flores devem ser fotografadas junto ao chão, em posição horizontal, para que se mostre a flor de frente e não de cima. Isto permite que se observe a sua estrutura, as suas formas e cores e toda a sua extensão do caule ao topo da flor. Se se fotografa de cima, mesmo com algum ângulo, o que se mostra da flor é apenas uma parte daquilo que ela é. Seria como se fotografássemos uma pessoa ou uma ave sempre de cima… É claro que para fotografarmos uma orquídea junto ao chão precisamos de nos deitar nele ou, pelo menos, usarmos os joelhos. Daí as joelheiras serem tão úteis. Eu gosto de me deitar no chão e na Serra de Aire o cheiro do tomilho e do alecrim faz com que esta experiência valha ainda mais a pena. A minha sugestão é que se explore o sujeito e se olhe para ele de várias perspectivas, incluindo de baixo para cima para mostrar o céu azul.

1/250s a f/3.5, ISO 100

Simplificar o fundo

O facto de usarmos uma perspectiva baixa permite-nos igualmente simplificar o fundo sobre o qual fotografamos a orquídea. Se fotografarmos ao nível do olho, em pé, como estamos habituados, o plano de fundo será sempre o solo, na maior parte das vezes extremamente confuso. Ao adoptarmos uma posição baixa podemos escolher um fundo suave, monocromático ou mesmo com pedaços de cor introduzidos pelas outras flores que habitam a mesma zona. O facto de usar uma objectiva macro de 180mm também ajuda a simplificar o fundo ao suavizá-lo com uma profundidade de campo pequena (abertura grande, valor de f/ pequeno), maximizada pela distância focal longa. Na imagem da esquerda usei o alecrim em flor para mostrar o ambiente, enquanto que na da direita procurei um fundo mais limpo e mais simples para fazer sobressair as formas e as cores da orquídea. Esta procura do fundo, alterando a nossa posição à volta da flor, é extremamente importante.

1/100s a f/4.5, ISO 100

1/400s a f/4, ISO 100

Adicionar um pouco de luz

Há quem diga que a melhor altura para sair de casa e fotografar flores é com tempo encoberto. Já o fiz e realmente esse tipo de luz permite capturas com muito detalhe e com controlo de exposição simples. Mas quando o sol está presente no céu, também é possível conseguir-se imagens bonitas e diferentes que contribuem para um portfólio mais rico. Fotografar a contraluz, por exemplo, permite-nos adicionar uma camada de suavização muito interessante, ao mesmo tempo que define melhor os contornos da planta uma vez que estes estão iluminados por trás, permitindo-nos ver o seu carácter translúcido. Nesses casos, a planta tem de ser iluminada, pois a amplitude de luz é longa demais para o sensor permitir mostrar todas as zonas de forma correcta. Podemos recorrer a um reflector para direcionarmos a luz para a flor. Eu costumo andar com um, mas desta vez não o trouxe. Em vez disso, decidi usar o flash, colocado remotamente perto da flor e apenas com uma regulação manual suave (1/128) foi o suficiente para iluminar a planta e conseguir uma imagem mais vibrante.

1/200s a f/4.5, ISO 100

1/320s a f/4.5, ISO 100, Flash

Fotografar por entre as plantas

Uma das técnicas que mais uso, inclusive na fotografia de paisagem intima, é a de fotografar com algum objecto à frente da teleobjectiva para criar uma camada de suavidade extra ou para emprestar padrões de cor extra à fotografia. Como esses objectos estão perto da objectiva ficam sempre suavizados, podendo bloquear de forma mais ou menos pronunciada o sujeito principal da nossa fotografia. Nos dois casos que apresento de seguida, fotografei a orquídea por entre ramos de tomilho e alecrim, uns mais perto e outros mais longe da flor. Na imagem da esquerda, o azul do alecrim em flor empresta alguma cor à imagem, enquanto que à direita o fundo creme apenas é suavizado pela presença do tomilho em frente da objectiva. É pena que as fotografias ainda não reproduzam o aroma dos locais…

1/320s a f/4, ISO 100, Flash

1/125s a f/3.5, ISO 400

Chegar perto

Finalmente, aproveitando o facto de estar a fotografar com uma objectiva macro que me permite uma distância de foco curta, resolvi mostrar alguns detalhes da flor. Detalhes que permitem evidenciar uma parte mais especial da flor ou que permitem uma fotografia mais abstracta, utilizando a luz e as formas disponíveis. Desta forma, consegue-se mostrar algo mais do que a representação formal do objecto fotografado, permitindo-nos também trabalhar a criatividade e o “pensar fora da caixa”.

1/320s a f/5.6, ISO 200

1/200s a f/8, ISO 100, Flash

1/400s a f/5.6, ISO 100, Flash

Todas estas imagens foram realizadas num espaço de pouco mais de 100 metros quadrados, com quatro indivíduos da mesma espécie (Himantoglossum robertianum), num período de pouco mais de 1 hora. Ou seja, não é preciso viajar para sítios exóticos ou calcorrear serras para fotografar com paixão e obter bons resultados. O facto de levar apenas uma objectiva e estar liberto da mochila é um óptimo acelerador para a criatividade e liberdade fotográfica. O tripé ficou também no carro. Raramente o utilizo neste tipo de fotografia (eu avisei que não faço macro, nem sigo os cânones instituídos desse tipo de fotografia), preferindo fotografar à mão, mesmo quando em foco manual.

Para a semana hei-de voltar para ver a evolução das orquídeas e fazer novas experiências, desta vez com outra objectiva e outros recursos criativos. Para mim, fotografar um só sujeito é tudo menos redutor. É um exercício de grande comunhão com o espaço que me apaixona e uma oportunidade para criar algo de diferente.

Um comentário

  •    Responder

    Que bonita coleção. Hoje tambem andei pelo PNSAC mas não encontrei nada semelhante. Gosto desta “mudança” de paradigma. Ver-te fazer incursões por áreas menos exploradas por ti.. E que bem que te sais (quem é sabe o que faz, mesmo “fora de pé” faz bem).. Continua.

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