Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

A Serpente Dourada, de Francisco Machado


“A Fotografia é uma língua estrangeira que todos pensam falar.” – Philip-Lorca di Corcia

A maior parte de nós, em especial os que leem o que escrevo neste blog, está habituada a fazer, partilhar e ver muita fotografia. Mas embora passem pela nossa vida centenas de fotografias diariamente, esse fluxo de imagens deixa-nos cada vez mais longe de uma literacia visual que seria mais facilmente atingível se o meio onde as observamos fosse diferente. O meio e o tempo que entregamos a essa contemplação.

Eu sou um ávido consumidor de livros de fotografia. Embora reconheça vantagens no acesso online ao trabalho da maior parte dos fotógrafos que sigo e descubro – até porque grande parte deles usa exclusivamente esse canal como meio de divulgação das suas criações -, não há como segurar num livro e usufruir, com o tempo e o ritmo que a fruição deste tipo de arte carece, daquilo que as fotografias têm para me dizer. Isto porque, a boa fotografia, tem sempre algo para me dizer.

Com esse intuito, o de criar um espaço de tempo próprio para observarmos fotografia, decidi criar uma nova rúbrica neste blog onde vou escolher uma fotografia que admiro, de um fotógrafo português, e partilhar convosco o que ela me diz. Como sempre, será um exercício de subjectividade intimo, que me ajudará a colocar em palavras aquilo que eu sinto ao contemplar o olhar de alguém que muitas vezes não conheço, mas que decidiu tornar perene um estado de alma, a resposta a um momento marcante da sua vida. É também a minha maneira de lhe agradecer essa partilha e essa criação, sem lhe pedir autorização e sem o apresentar formalmente como fotógrafo. Cabe-vos depois a vós essa procura e essa descoberta.

A esta rúbrica decidi chamar “Longa Exposição”.

A SERPENTE DOURADA, de Francisco Machado
Islândia, Agosto 2016

A primeira fotografia que escolhi para nos entregarmos durante uns minutos a este exercício de contemplação foi realizada num dos santuários naturais mais famosos do mundo. Mesmo os que, como eu, nunca tiveram a felicidade de visitar este país a norte, já devem ter passado a vista por dezenas de imagens dos seus momentos naturais, em especial cascatas de grandes dimensões, praias onde os blocos de gelo se substituem às estrelas-do-mar, montanhas de carácter vulcânico verdadeiramente únicas. A Islândia é decididamente um dos cantos do mundo mais fotografados e razões para tal não faltam. No entanto, mesmo para os mais atentos, é difícil vermos imagens verdadeiramente novas daquele lugar.

Há uns meses atrás, comentei um trabalho da inglesa Lizzie Shepherd que na sua página de facebook colocou a primeira fotografia de árvores que eu me lembro ter visto da Islândia. Se procurarem no Google por imagens da Islândia também terão dificuldades em ver árvores ou algo mais do que auroras, montanhas em forma de vulcão e cascatas. E gelo, muito gelo. É difícil escapar a este tipo de registo, simplesmente porque estes elementos têm muito peso em termos paisagísticos e agarram pela sua majestade e imponência. São verdadeiros catalisadores de admiração em quem os presencia e os fotografa. Para fazer algo de diferente na Islândia são precisas várias coisas que a maior parte de quem lá vai não tem no momento ou nem traz de casa. Entre essas coisas está tempo para fotografar com calma ou, ainda melhor, disponibilidade para voltar várias vezes ao mesmo local. E maturidade fotográfica, entendida como a capacidade de ver para além do óbvio, o ser capaz de à décima cascata dizer “basta”.

Alguma destas coisas deve ter estado presente na mente do Francisco Machado quando captou este momento em plena viagem pelas terras mágicas da Islândia. A sua fotografia apresenta um momento de perfeita comunhão com a natureza e com o momento de luz que se apresentou diante de si. Esta criação não é obra do acaso, nem da beleza gratuita do local: é uma escolha consciente do que colocar no rectângulo da fotografia e uma resposta emocional a um momento que se desenhou bem no fundo da sua experiência acumulada de ser humano e fotógrafo.

A forma como aquele rio de luz serpenteia pela fotografia prende-nos o olhar e mantem-nos dentro do mundo íntimo do Francisco, reforçado pelo facto de esse mesmo rio estar contido nele próprio. A forma como a base da fotografia abraça um rio que parece acabar ali é precioso na medida em que nos deixa à procura de um ponto de fuga que não encontramos, mas que imaginamos.

Aquelas águas, banhadas por uma luz quente, às vezes forte, às vezes fraca, fazem-me lembrar o curso de uma vida que faz questão de seguir o seu curso por entre as pedras negras da nossa existência. Por vezes rápida, por vezes serena, por vezes transbordando as próprias margens, é na forma como essa vida se enche de luz no final que se completa uma narrativa que tem o seu limiar na nuvem de água dourada que esconde a génese deste momento.

As tonalidades desta imagem e a forma como o fotógrafo decidiu registá-las são verdadeiramente inspiradoras. No limite do discernível, uma exposição um stop mais lenta ou mais rápida teria diminuído a força da narrativa aqui presente. A forma como a luz acende de forma ténue a escuridão que envolve o rio é brilhante, fazendo descobrir o terreno com o passar do tempo, como quando entramos numa sala escura e vamos lentamente discernindo o que está à nossa volta.

Há um misto de criação e de evolução, de força e de serenidade, de grito e de surdez nesta imagem. Eu adoro-a porque consigo ouvir a força da água e os uivos do vento a dançar por este vale, mas também as notas do piano numa peça simples de Satie. Mas acima de tudo, a razão pela qual eu gosto desta fotografia está muito para além do que se vê. É a forma como a luz encontra sempre um caminho no meio da escuridão que me deixa quieto, confiante e cheio de esperança. Assim é esta visão do Francisco Machado.

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Nota: O Francisco Machado não tem site ou página de facebook da sua fotografia mas podem conhecer um pouco do seu trabalho aqui. Também podem pedir-lhe amizade aqui.

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