Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Colecções de Cromos


“Pessoas assim, como este Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que crêem sobejar-lhes da vida a juntar selos, moedas, medalhas, jarrões, bilhetes-postais, caixas de fósforos, livros, relógios, camisolas desportivas, autógrafos, pedras, bonecos de barro, latas vazias de refrescos, anjinhos, cactos, programas de óperas, isqueiros, canetas, mochos, caixinhas-de-música, garrafas, bonsais, pinturas, canecas, cachimbos, obeliscos de cristal, patos de porcelana, brinquedos antigos, máscaras de carnaval, provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo (…)” – in “Todos os Nomes” de José Saramago (1997)

Adoro coleccionar coisas. Sempre adorei. Desde a minha primeira colecção de selos, no início dos loucos anos 80, nunca mais parei. Entre calendários, latas de bebida, autocolantes do Bollycao, cartas de Magic, relógios Swatch, CDs, muitas foram as colecções que preencheram a minha vida. Hoje em dia, algumas ainda permanecem, incluindo um par delas relacionadas com a fotografia. A razão de tudo isto é, certamente, campo de estudo para a psicologia. Se uns coleccionam como fonte de investimento e outros para poderem participar em grupos de troca que preencham a sua vida social, eu sempre o fiz pelo desafio que todas estas colecções têm inerentes. E, principalmente, pelo gozo que dão na tentativa de as completar. Como diz Saramago, é como se conseguíssemos, por um momento, organizar todo o inverso, arquivar o mundo, ordenando-o de A a Z em pequenas bolsinhas transparentes.

Infelizmente, não tenho dinheiro para coleccionar Arte. Principalmente Fotografia e Pintura, duas das que mais me apaixonam. Vejo-me assim relegado para o facto de ter de a criar. Como não percebo nada de tintas e pincéis, decidi aventurar-me com a câmara fotográfica. Tal como quando coleccionava, rapidamente percebi que não podia abraçar o todo e decidi dedicar-me a um só campo da fotografia. Para o cenário das minhas criações resolvi escolher a Natureza, não só pelas diversas oportunidades de criação que possibilita, na infinitude do seu temperamento, mas também porque me permite fazer desse objecto o meio onde a própria criação tem lugar. É, na minha opinião, a simbiose perfeita.

Mas nem sempre olhei para a fotografia como um meio de criação artística. Talvez inebriado pela infinita demanda que uma colecção comporta, houve tempos em que também coleccionava fotografias, pensando que as estava a criar. E, por incrível que pareça, sinto que isso está, cada vez mais, disseminado por todo o lado.

Na minha opinião, hoje em dia, esta realidade está cada vez mais presente: há inúmeras pessoas a coleccionar fotografias ou a usar a fotografia para compor a sua caderneta de cromos.

Colecção nº 1: Spots Maravilhosos

Uma das cadernetas mais populares dos dias que correm, sobre a qual dissertei um pouco na minha recente intervenção no Cinclus, é a dos Spots Fotográficos de Eleição. A cada dia que passa, chegam até mim, nas mais variadas formas, evidências desta brilhante colecção. A última delas, foi o excelente website Terra Quantum, onde fotógrafos de eleição, entre os quais algumas referências minhas, contribuem com os seus cromos para uma caderneta que até a Panini cobiçaria. Do melhor que se fará em paisagem natural, dirão alguns. Sites como este já existem há mais de 10 anos e foi num deles que dei os primeiros passos no mundo das comunidades fotográficas. Nessa altura, também corria Portugal à procura de cromos… No facebook, os grandes fotógrafos (e grandes pode ser aqui entendido como aqueles a quem muita gente dá atenção) de paisagem desfilam os seus cromos – na maior parte das vezes repetidos – para deleite dos que folheiam a sua caderneta mas, certamente, também para gáudio próprio de ter preenchido mais um espaço vazio na sua colecção.

A pergunta que deixo não é para quem faz e publica estas fotografias. Eu próprio, de quando em vez, também as publico. É a minha veia de coleccionador a vir ao de cima. A questão fica para quem as vê, fotógrafos ou simples apreciadores da fotografia como meio de expressão artística.

O que é que vos inspira a olhar para este tipo de fotografia? Para que mundos de superação vos transporta a fruição deste tipo de fotografia?

Colecção nº 2: Vertebrados e Invertebrados do Planeta Terra

O facto de ultimamente ter despertado para a fotografia de vida selvagem e de conviver com muitos fotógrafos que perseguem este tipo de fotografia deu-me a conhecer uma realidade que desconhecia. Fruto dos vários festivais de fotografia de natureza em que participei, dei por mim a assistir a duas linhas de pensamento diferentes. Uma em que se usa a biodiversidade e a fotografia dessa riqueza natural para contar histórias. São narrativas visuais que nos agarram, principalmente pela sua qualidade estética – afinal estamos a falar de fotografia -, mas também pelo facto de serem pinceladas aqui e ali com alguns apontamentos científicos que nos fazem descobrir o mundo natural que temos diante de nós. Por outro lado, existe uma corrente para quem este tipo de fotografia serve apenas para coleccionar imagens de espécies animais, tal como se de um jogo de caça se tratasse. Exibem-se imagens dos animais captados (ou será capturados?) sem qualquer componente estética e apresentam-se a quem as vê com os trajes de gala da fotografia.

Se calhar sou eu a levar a fotografia demasiado a sério… Porque é que uma fotografia de simples retrato de um  (deixei-me-escolher-um-animal-que-não ofenda-as-susceptibilidades-de-ninguém-mas-que-seja-importante-para-fazer-valer-o-meu-ponto-de-vista) chapim-real (ou Parus major como se deve dizer…) há-de valer menos do que “One” de Peter Lik, perguntar-me-ão os fotógrafos de vida selvagem da segunda linha? Mas depois também são esses mesmos fotógrafos a franzir o olho quando eu apresento uma fotografia de um pato mudo (daqueles com que se faz arroz, como bem lembra o meu amigo Nuno[*]) numa apresentação sobre fotografia de Natureza. Será o que o pato mudo não tem direito a ser chamado Cairina moschata domestica? Como brilhantemente disse a brilhante Elsa[*], no último Cinclus, “eu não sei o nome desta espécie… será isto fotografia de natureza?”

Perdoem-me a sinceridade, mas esta segunda linha de produção personifica apenas mais uma caderneta de cromos fotográficos. Na minha opinião, há aqui muito pouca intervenção consciente da utilização da fotografia como meio de expressão artística.

Colecção nº 3: A minha é maior do que a tua

Finalmente, a terceira colecção que quero aqui abordar é a do equipamento fotográfico. Acredite-se ou não, há pessoas (fotógrafos…) que usam a fotografia como desculpa para irem às compras. Pessoas que pensam que para fazerem as fotografias que se colam em cadernetas é sempre preciso o último modelo. Basicamente, estamos a falar da categoria da cola e em como a UHU de stick cola infinitamente pior do que a Pelikan de bisnaga. Já para não falar da cola branca do chinês que borra tudo. Para se colar um cromo como deve de ser, para fazer a fotografia perfeita, é sempre preciso aquilo que ainda não se tem. É a 300mm f/2.8 que custa mais do que o meu carro a impedir-me de fazer a fotografia do chapim-real. A 20mm da Zeiss, o tripé de carbono da Gitzo, a bolha de nível em cristal da Atlantis, a D810, os filtros da Lee, o controlo remoto da Hähnel, o iPad ligado ao router da Manfrotto… se eu não tenho isto como é que consigo fazer uma fotografia (ou um cromo dos repetidos) como deve de ser da Ponte Vasco da Gama ao nascer do sol?

A esta altura já perceberam que estou em risco de perder algumas das figurinhas na minha colecção de amigos fotográficos. Isto porque os cromos são vistos como coisas prejurativas, ainda o que meu miúdo ache precisamente o contrário. Para ele, os cromos são imagens apaixonantes.

Mas é preciso esclarecer que eu adoro colecções. Aliás, foi isso mesmo que comecei por dizer. E não vejo mal nenhum em que se use a fotografia para coleccionar. Apenas não é isso que eu quero fazer.

Que este meu artigo sirva para sugerir uma pausa àqueles que também não o querem fazer. Se está no meio de uma colecção e não é isso que almeja para a sua fotografia, pare de colar cromos. Estou certo que aquilo que se vai abrir diante de si vale muito mais do que qualquer colecção que tenha em mãos. Como dizia E.E.Cummings “Destruir é sempre o primeiro passo em qualquer criação“. Atreva-se a rasgar essas cadernetas e a criar algo de novo. Algo que mostre aquilo que é e aquilo que sente no confronto com a natureza. A sua natureza.

[*] O Nuno e a Elsa são dois fotógrafos amigos que não coleccionam cromos. Se não o conhece aconselho vivamente uma visita, demorada, às suas páginas na internet. Pode apreciar o trabalho da Elsa aqui [elsamar2.wixsite.com/emsfoto] e o do Nuno neste link [nunocabrita.pt]

4 Comentários

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    O terceiro tipo é sem dúvida o melhor e o que os vendedores de material gostam mais 🙂

    Luis, ainda estou à espera do artigo que prometeste escrever sobre os motivos que te levam a fotografar.

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    Uau Luis. Adorei este teu post. Não que sempre tenha sido um colecionador mas porque estou numa fase de crise de criatividade em que os cromos fotográfico já me dizem pouco, não é que não sejam bonitos mas falta qualquer coisa. Vou-te enviar umas fotos de ICM que gostaria que visses e me desses por favor o teu comentário (não estão no meu site). Em Abril não vou conseguir fazer o teu workshop mas fico á espera de algo…Um forte abraço Pedro Castro

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    Luís, compreendo-te perfeitamente. Chegas-te a uma encruzilhada e questionas a fotografia que fazes e para onde é que queres ir. Eu também no meu percurso tenho-me questionado várias vezes e ainda o procuro, o caminho. Tenho feito desde retrato, astrofotografia, vida animal, natureza, macro, street, espeleofotografia e em cada uma delas perspectivas diferentes. Se alguma vez vou encontrar esse caminho, não sei. Se vou continuar a deambular entre elas, não sei. Mas também é isto que torna apaixonante a Fotografia. Vários grandes nomes, passam pelo mesmo, Ansel Adams, Sebastião Salgado, entre outros. O que temos de procurar, é de nos sentirmos bem com o que fazemos e isso vai variando ao longo do nosso percurso. Um Gd Abraço

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    Pois, esqueceste-te da 4ª coleção: comida deste mundo!
    Adorei 😉

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