Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

1º Prémio na Categoria "Paisagem". 2º Concurso Generg - Fotógrafo de Natureza do Ano (2017)

Ready? Set. Go! – Concursos de Fotografia


Não costumo participar em concursos de fotografia. Em primeiro lugar, porque sempre vi a maior parte dos concursos que se realizam em Portugal como uma forma indelicada de construir, de forma gratuita, bancos de imagens para as entidades que os promovem. Embora essa realidade tenha mudado um pouco nos últimos tempos, continuam a ser muitos os que ainda pautam por esse reprovável comportamento. Depois, porque, como lembrou numa entrevista o pintor Ran Ortner, “a arte não é um concurso de habilidades, não é um concurso de inovação.” Para uma pessoa que, como eu, olha para a fotografia como uma disciplina artística não faz grande sentido submeter aquilo que me é tão íntimo ao crivo de um júri que pouca ou nenhuma relação tem com aquilo que crio. A matriz de um concurso nada tem a ver com a singularidade de cada um e por essa razão contam-se pelos dedos da mão as vezes em que neles participei.

Curiosamente, em jeito de contraponto, tive já o privilégio de ser várias vezes membro de um júri. E depois de o ter sido, sinto que passei a olhar para estes certames de outra forma.

O júri é uma entidade complexa. É constituído – ou assim o devia ser – por pessoas que estão habituadas a ver fotografia, muita fotografia e boa fotografia. São pessoas que vivem a fotografia e percebem as tendências, o que se fez no passado e o que se faz no presente. Alguns deles são fotógrafos de referência, outros são académicos reconhecidos, mas todos têm a capacidade de olhar para uma fotografia e explicar porquê. E este porquê é sempre o mais difícil de enunciar. É este porquê que devia estar na cabeça de cada pessoa que decide participar num concurso de fotografia. Por esta razão, só participo em concursos em que veja no júri a capacidade de disseminar as minhas fotografias com um sentido crítico, capaz de ultrapassar as fronteiras do óbvio, de entrar naquilo que possa ser a minha visão e, acima de tudo, de ter a capacidade de se emocionar ao ver fotografia por aquilo que elas representam e não apenas por aquilo que elas são. A primeira coisa que me leva a concorrer não é o tema, não é o prémio, são as pessoas que formam o corpo do júri.

Um júri é sempre mais do que a soma dos membros que o constituem. O resultado que dele emana nunca é composto pelas fotografias favoritas de A ou de B. Quando está a exercer o seu trabalho, o júri desenvolve um processo de equipa e uma capacidade de gerar consensos que não é fácil, nem directa. Os seus membros são pessoas com sensibilidades diferentes, com experiências diferentes, com gostos e um percurso de vida distinta. Quando olham para uma fotografia emocionam-se de forma diferente. O desígnio de um júri é conseguir abraçar todas estas perspectivas e chegar a um resultado consentido por todos os membros. Um resultado que sempre representará um combinado de cedências, de deslumbramento colectivo, de impressões conjuntas de uma grande exigência. E uma coisa é certa, este círculo saberá sempre o porquê de uma fotografia ter sido classificada à frente de outra.

Há pouco tempo fiz parte do júri do Concurso de Fotografia de Manteigas que avaliou perto de 500 trabalhos de cerca de uma centena de concorrentes. E nesse processo pude constatar várias coisas que gostava de partilhar convosco. Penso que poderá ser útil para quem pretende submeter imagens a um próximo concurso.

A Fotografia é Arte!

Quando se participa num concurso devemos olhar para as nossas imagens como criações artísticas. A menos que o concurso diga expressamente que o objectivo é premiar o sujeito da fotografia em vez da sua representação, qualquer fotografia submetida a um concurso deve ser encarada como uma obra artística de alguém que tem algo a mostrar de seu com a imagem que está a apresentar. Se uma fotografia representa arte, então há vários aspectos que se deve ter em conta. Em primeiro lugar, as imagens devem provocar emoção, seja ela qual for. Beleza, admiração, humor, tristeza, alegria, intriga, vários são os sentimentos que uma fotografia pode provocar em quem a vê e em quem a faz. O que não pode, nem deve acontecer, é submeter-se uma imagem que não tenha este objectivo, pelo menos na sua génese, ou seja, na alma de quem a faz. Como disse Jane Evelyn Atwood, “uma boa fotografia é uma fotografia que interpela. Que diz muito mais do que a página onde está impressa. Que te faz ir mais além. Que habita em ti e te fica na cabeça.” Esta frase é sem dúvida algo que deve estar na cabeça de todos os que pretendem submeter as suas imagens a um concurso de fotografia.

Aspectos técnicos na crítica fotográfica

A juntar a tudo isto, para que uma fotografia seja considerada arte é também preciso que ela esteja livre de qualquer deficiência técnica evidente. Na maior parte das vezes, é por aqui que o júri começa a sua avaliação e é fácil perceber porque grande parte das imagens submetidas a concurso não passa sequer uma análise inicial. Aproveito para partilhar algumas das falhas que encontrei na análise das imagens dos últimos concursos em que fui júri para que possam fazer uma checklist antes de submeter as vossas próprias imagens:

  1. Sujidade do sensor. É incrível o número de fotografias que chegam a um concurso cheias de pontos de sujidade do sensor. Nenhum júri sério vai deixar passar uma imagem que por desleixo – ou incapacidade de os eliminar – apresenta este tipo de defeitos técnicos;
  2. Falta de foco e imagens tremidas. Quando o sujeito principal está fora de foco ou a imagem está tremida de uma forma não propositada, a imagem é imediatamente posta de lado. E não vale a pena arranjarmos truques para tentarmos reduzir este defeito, até porque o júri tem acesso ao ficheiro RAW e percebe sempre quando a imagem está com este tipo de problema;
  3. Objectos “indesejados” na imagem. Há objectos que não pertencem a uma imagem, em especial nas bordas das fotografias. A quantidade de objectos que distraem o olhar e atentam contra a simplicidade e leitura das imagens que chegam para avaliação são imensos. Pontos de luz forte (spotlights) em zonas mortas da imagem, lixo, objectos fundamentais cortados pelos limites da imagem, muitos são os elementos que arruínam uma fotografia e que são tão fáceis de ver e eliminar quando se olha para uma fotografia com sentido crítico;
  4. Saturação excessiva. Este é um dos problemas mais frequentes, em especial quando estamos a falar de concursos de fotografia de natureza e paisagem;
  5. Má utilização do HDR. As fotografias devem ter sombras e altas luzes. A total ausência destes elementos em imagens realizadas quando o sol está presente na cena é de evitar. Em todos os júris de que fiz parte, nenhum aprecia este tipo de edição de imagem;
  6. Horizontes tortos. A menos que seja uma decisão deliberada e perfeitamente visível na imagem, um horizonte torto é normalmente suficiente para desclassificar uma fotografia;
  7. Ausência de edição. Uma imagem apresentada como saída da câmara é, na maior parte das vezes, uma imagem pobre. Isto porque raramente uma câmara consegue registar aquilo que o fotógrafo quer mostrar. Claro que há excepções, mas não me lembro de qualquer fotografia não editada ter passado à fase de finalista de um concurso onde tenha sido membro do júri;
  8. Falhas na qualidade das objectivas. Por muito que custe a quem participa, limitações das objectivas mais fracas são visíveis no resultado final, em especial no que diz respeito a fringe, suavidade nos cantos e outras deficiências. Ou essas características são corrigidas na captura e/ou edição, ou uma imagem que mostre este tipo de limitações dificilmente será considerada no lote de finalistas.

Felizmente, muitos dos fotógrafos que concorrem estão despertos para estes pontos e fazem questão de garantir que tudo está bem antes de submeter as suas fotografias a um concurso. Mas ainda assim, há uma larga percentagem (às vezes 50%) de participantes para quem estes aspectos são ignorados.

Considerações estéticas

Quando as fotografias passam pela malha técnica do júri – a mais fácil de aplicar – segue-se a análise estética das imagens onde composição, criatividade e impressão deixada em cada membro do júri é tida em conta. Como disse anteriormente, é preciso perceber que um júri representa um saber acumulado superior a cada um dos seus membros. No colectivo há milhares de fotografias analisadas, um sem número de experiências de visualização realizadas, um conhecimento daquilo que se faz que toca quase tudo aquilo que existe no panorama artístico aplicável. É por isso fácil de perceber que, um por-do-sol, só por si, dificilmente captará o interesse de um júri que está “farto” de ver centenas deles apenas na última semana.

As fotografias têm de ser construídas de forma a que o júri olhe para elas e não sinta repulsa. É fácil de perceber por isso, que em termos de composição, talvez as mais simples e mais aderentes aos cânones instituídos consigam chegar mais longe. Isto porque, mesmo que um membro do júri seja adepto de composições mais arrojadas, é preciso ter a capacidade de agradar a todos. Por essa razão, aconselho, por experiência própria, a mantermos as fotografias que submetemos dentro de uma lógica de equilíbrio e balanço nos elementos que pretendemos mostrar na nossa imagem. Quanto mais simples e directa, mais fácil é gerar consenso e mais fácil é passar a mensagem. Outro dos erros mais comuns nas imagens apresentadas é a proliferação de “espaços mortos” nas composições. Uma fotografia em que metade da imagem é um espaço sem interesse, a roubar protagonismo ao elemento principal, é algo que não funciona e que dificilmente passa a mensagem.

No que diz respeito à criatividade, raro é o júri que premeia algo que todos estamos habituados a ver. Por muito bonita que seja uma imagem de um lugar sobrefotografado, dificilmente chegará longe num concurso, a não ser que tenha sido retrato de forma única e verdadeiramente espectacular. Quando fotografamos lugares icónicos, temos de o fazer de forma a que quem vê sinta algo mais do que “isto é o lugar bonito que todos conhecemos”. É preciso deslumbrarmos quem vê, não porque o lugar é “o tal”, mas porque a forma como o estamos a representar é realmente única. De forma análoga, também não vale a pena tentarmos concorrer com uma imagem parecida com outra que já tenha sido premiada anteriormente. A primeira coisa que o júri faz é visualizar os vencedores passados por forma a garantir que não premeia várias vezes “a mesma” imagem.

Depois há alguns temas que estão mais do que vistos e que funcionam da mesma forma que lugares icónicos: por-do-sol, longas exposições com água, cores de outono na floresta, fotos noturnas banais, reflexos simples, entre outros. Mais uma vez, lembre-se que os membros do júri veem centenas de imagens diariamente e se todos fazem este tipo de imagem diariamente eles também as consomem. É sempre preciso algo mais para deslumbrar uma pessoa com algo que lhe é familiar: uma maneira diferente e mais pessoal de o apresentar é sempre a solução. A isso chama-se criatividade.

Finalmente, outra coisa que o júri não gosta é de piruetas técnicas. Se vai converter a sua imagem a P&B, não seja porque não funciona a cores. Se vai usar um arrasto na floresta, lembre-se que o júri está farto de os ver e tem de mostrar algo que o surpreenda. A utilização de objectivas que fazem efeitos especiais também tem de ser acompanhada de uma visão única por parte de quem está atrás da câmara e a utilização de grandes contrastes, high-key e low-key, entre outras piruetas técnicas também têm de ser complementadas com uma injeção de emoção nas imagens. Mais uma vez, para o júri é algo que não é novidade.

O que faz uma imagem vencedora?

Quando concorri pela primeira vez ao Concurso de Fotógrafo de Natureza do Ano organizado no âmbito do Cinclus, resolvi submeter algumas das imagens que considerava melhor representarem a minha visão enquanto fotógrafo. O júri era constituído por fotógrafos que considero de referência, mas esse factor não teve qualquer influência nas imagens que decidi submeter. Preferi ser fiel àquilo que fotografo e à forma como olho para a fotografia como expressão artística. O resultado não me interessava muito e fiquei contente por ter tido algumas menções honrosas na edição desse ano. No ano seguinte voltei a concorrer. Desta vez mudei ligeiramente a estratégia, no intuito de perceber também a dinâmica dos concursos. Foi a quarta vez que concorri a um concurso de fotografia. Submeti um misto de fotografias que expressam a minha visão e algumas fotografias mais consensuais, ou seja, daquelas que eu pensava que o júri, como colectivo, poderia premiar. Acabei por vencer numa das categorias e ter mais um par de menções honrosas. Sem surpresa, a imagem vencedora na categoria de paisagem representa uma imagem clássica, fácil de gerar consensos, tecnicamente perfeita, com emoção q.b. e um sujeito icónico mas não sobre fotografado.

Assim sendo, quais penso serem as características de uma imagem vencedora?

  1. Carácter! Uma imagem vencedora tem de ter carácter. Seja ela de que sujeito for, animal, paisagem, humano, flor, planta, tem de ter carácter, interpelando quem a vê. Uma fotografia para ser bem-sucedida tem de ser mais do que aquilo que é. Se é uma pedra, que mostre a pedra, mas que seja mais do que apenas essa pedra, tal como bem lembra Edward Weston;
  2. Criatividade. Os júris tendem a premiar imagens que nunca tenham visto em detrimento de cenas que estão constantemente a visualizar. Se pensa em concorrer com um por-do-sol, um cogumelo ou uma ave, vai ter de se esforçar para que essa fotografia seja verdadeiramente espectacular;
  3. Simplicidade. A leitura da fotografia que pretende submeter tem de ser imediata. Se não a consegue ler, mal olha para ela, esqueça-a. É preciso que ela atue sobre o membro do júri na primeira leitura. Se a composição for simples, é mais fácil de isso acontecer. Se não houverem pontos distractivos, também. Procure imagens simples em que o sujeito principal é mesmo principal e claramente visível;
  4. Que mostre a luz. A luz é linguagem da fotografia e isso tem de ser visto. Fotografias que mostrem a luz, nas suas mais variadas formas, desde a mais suave à mais dramática, tendem a causar maior impacto em quem as vê e o júri não é insensível a isso. Esqueça o HDR e outro tipo de edição que roube a qualidade da luz dos cenários que pretende representar;
  5. Consensual. Muitos de nós já olhámos para o resultado de um concurso e achámos que as imagens podiam ser melhores. Eu, na qualidade de membro do júri, também já achei que alguns dos premiados nem apresentam fotografias que vão de encontro ao meu gosto pessoal. Mas, mais uma vez, é preciso lembrar que um colectivo é mais do que a soma das partes e não basta agradarmos a um dos elementos do júri. É preciso agradar a todos ou pelo menos tocar de alguma forma a todos. No último concurso que julguei, posso não gostar muito de todas as imagens que foram distinguidas, mas como membro de um colectivo consigo explicar em cada uma delas o porquê de terem sido premiadas;
  6. Emoção. Não é por acaso que a maior parte das imagens vencedoras nos tocam de alguma forma. Umas fazem-nos rir, outras sonhar, outras lembrar corações e outras formas humanas, outras transportam-nos para lugares que só existem na nossa imaginação. No último concurso onde fui júri, a imagem mais surpreendente foi a de uma flor, de parte de uma flor. A sua delicadeza, aliadas às curvas sensuais da sua composição e à paleta de cores verdadeiramente fabulosa, invocando serenidade, sensualidade e paz, foi suficiente para convencer todos os jurados de forma imediata. Procure imagens que lhe evoquem de imediato uma emoção e se tiver dúvidas mostre-a a um amigo, à sua cara-metade ou a um desconhecido. Se essa pessoa vir algum sentimento humano nessa imagem, então terá uma imagem vencedora.

Finalmente, é muito importante ler o regulamento do concurso a que estamos a concorrer. Não imaginam as fotografias que são excluídas porque simplesmente não se respeitaram as regras do concurso, quer na submissão, quer nas características que cada fotografia deve ter. E se existe um tema, lembrem-se de o respeitar. Se a categoria diz “Paisagens de Portugal”, consigo ver Portugal nelas?

Se acredita que tem uma imagem vencedora, que inspira quem a vê e que não tem defeitos técnicos visíveis, não desista. Julgar uma imagem como uma obra de arte é dos processos mais subjectivos que existem. Mesmo que um júri não lhe ofereça o reconhecimento que ela merece, haverá certamente outro que o vai fazer. Estou certo que no processo vai certamente crescer na sua autocrítica e na forma como apresenta a sua própria fotografia. Concursos de referência não faltam e o próximo está já aí. Boa sorte!

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