Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Moledo do Minho, Canon EOS 5D Mark III, 24mm, 8s@ƒ/8, ISO 400

Contos de algodão agridoce


Como todas as histórias, esta também tem um começo. Passaram dez anos sobre o dia em que um grupo de colegas de trabalho, incitados por um fotógrafo de paisagem experimentado, decidiu combinar uma saída na zona da Serra e Costa de Sintra. Pela primeira vez, iria levantar-me antes do nascer-do-sol para fotografar.

Eram os oito dias andados do derradeiro mês de 2005, feriado e na viagem para Sintra a chuva teimava em cair. Já não recordo se fiz a viagem só ou acompanhado, mas lembro perfeitamente de chegar à zona da Floresta da Peninha ainda escuro e de a chuva continuar a cair. O sol nasceu e o céu começou a limpar. A chuva parou. Foi tempo de sair do carro, tripé a estrear, para fazer algumas fotografias. Nem sabia o que fotografar… Habituado ao ambiente urbano, faziam-me falta as pessoas. O meu amigo, fotógrafo de paisagem experimentado, passou o tempo todo no carro. Vinha à espera de encontrar nevoeiro e, na falta dele, preferiu nem tirar a câmara da mochila.

Passado um tempo a deambular por entre o verde da floresta, decidimos ir até à praia da Adraga. Tal como os três ou quatro novatos que me acompanhavam, fartei-me de fotografar, encantado pela beleza de uma praia que desconhecia, pelo seu aspecto selvagem e, acima de tudo, pelo ar fresco da manhã e pela ausência de pegadas na areia. O meu amigo, inimigo de céus de azul cristalino, nem um disparo efectuou. Preferiu perder-se na companhia de algo doce…

Dessa sessão, já pouco resta no meu arquivo. Das mais de 50 fotografias feitas na Peninha, apenas uma resta para contar a história. Das centenas registadas na Adraga, restam ainda 10, embora não saiba bem até quando… Ah! Quase me esquecia; foi a primeira vez que fotografei em RAW.

Praia da Adraga (08/12/2005 – 12:52), Canon EOS 300D, 1/320@f/11, ISO 100

Praia da Adraga (08/12/2005 – 12:52), Canon EOS 300D, 1/320@f/11, ISO 100

Na altura, causou-me alguma estranheza a postura do meu amigo. Para um fotógrafo de paisagem com larga experiência, o seu amor pelo acto de fotografar pareceu-me pequenino. Porque razão não teria ele feito um único disparo?

A resposta a esta questão iria eu próprio desvendar uns anos mais tarde.

Àquele primeiro dia, do resto da minha vida como fotógrafo de natureza, seguiram-se muitos. No início quase sempre acompanhados, rapidamente passaram a ser vividos na incrível comunhão que acontece quando se está sozinho no meio da natureza. A técnica foi-se aprimorando, o equipamento aumentando e passado um bom par de anos senti que estava pronto a abraçar a paisagem com a dedicação que ela merece. Em 2007, decido que é apenas no meio natural que quero fotografar.

As viagens fazem-se caminhando e nesse caminho há que procurar referências. Sejam elas amigos mais ou menos distantes, espaços de discussão onde somos influenciados por aqueles que admiramos, há um sem número de menções que procuramos seguir para podermos também nós atingirmos a próxima estação.

Foi nessa altura que descobri a famosa “hora dourada”. Tal como uma prata bonita de um chocolate de Natal, um embrulho cintilante do rebuçado mais doce, a hora dourada prometia fazer maravilhas pela minha fotografia. Comecei a fotografar ao pôr-do-sol, a perceber para que servem os filtros de densidade neutra em gradiente, porque é que o pano de limpeza é tão importante e aprendi a nunca mais olhar para um céu de fim de dia da mesma forma. Ainda hoje, sofro daquele feitiço que percorre o imaginário de todos os fotógrafos de paisagem natural, que não são capazes de olhar um fim do dia sem pensar na sua câmara fotográfica. O romance associado a um crepúsculo nunca mais foi o mesmo. E isso, na minha opinião, é uma das coisas mais bonitas que já me aconteceu. Estou certo que a maior parte das pessoas nem sequer se dá conta das cores, das formas e da metamorfose que é possível acontecer à natureza num ocaso. Estão tão apartadas a olhar para baixo que coisas simples como esta lhes passa completamente ao lado.

Mas todo este açúcar oferecido pela infinita beleza de um pôr-do-sol também tem o seu lado mais amargo: foi nesta altura que deixei de ter vontade de visitar a natureza noutras alturas do dia. E, tal como o meu amigo que não largou o conforto do carro naquele “era uma vez” da Peninha, também eu preferia ficar em casa sempre que o céu não tinha vontade de se vestir de gala. E mesmo quando saía e ele teimava em me fintar, vestindo o seu manto monocromático, eu retribuía não tirando a câmara da mochila e aproveitando para comer aquela barra energética com recheio de cereja ou aquele chocolate que compensava a minha inglória saída.

Os anos foram passando e a jornada prosseguia. Os amigos foram perdendo a sua capacidade de influenciar a minha fotografia e as referências que procurava foram sendo outras. Fui também percebendo que tanta doçura podia ser prejudicial à minha saúde fotográfica e redescobrindo que muita da vontade primitiva que me fez abraçar a fotografia de natureza existia sobretudo no facto de a poder absorver de corpo inteiro. A experiência de sentir a natureza, de a cheirar e de a poder retratar de forma mais íntima, tal como no primeiro dia, voltou a falar mais alto.

Quando amamos alguém, de verdade – existirá outra forma? -, queremos estar com ela a toda a hora. Mesmo que imóveis e em silêncio. Quando acordamos de manhã e a contemplamos ao nosso lado, sem o glamour do fim de tarde anterior em que cintilava como a mais bonita do mundo, o nosso amor continua intocável. Assim deve ser com a natureza. Quem a ama de verdade, aninha-se ao seu lado quando está a chover, quando faz um calor abrasador, quando a luz do meio-dia a ilumina ou quando a noite a cobre com o seu véu de estrelas.

Comecei então a estudar como as diferentes alturas do dia moldavam a paisagem que fotografava e a entender que tipo de luz era a ideal para os vários registos que pretendia fazer. O pôr-do-sol foi rapidamente substituído pelo nascer e a manhã e a tarde passaram a fazer parte dos meus planos de saída. A ditadura do pôr-do-sol estava a perder-se.

No último par de anos, a minha fotografia também mudou. As grandes vistas interessam-me cada vez menos, sendo substituídas por aquilo que eu costumo chamar o céu debaixo dos nossos pés. Cada vez menos incluo o firmamento nas minhas criações e, por essa razão, deixou de ser tão importante que ele vestisse o papel de actor principal nas minhas composições. A luz, essa, continua a ser essencial e, por essa razão, nascer e pôr-do-sol permanecem na lista das alturas do dia em que mais gosto de fotografar. Apenas os cenários que capto nesses momentos são diferentes. Mas também comecei a sair cada vez mais quando está nevoeiro, quando os dias estão cinzentos ou mesmo quando chove. A verdade é que é cada vez mais difícil prenderem-me em casa por um qualquer feitiço do tempo. Há sempre motivos a fotografar com a luz que a natureza tem para nos dedicar naquele dia.

Na Páscoa passada viajei até ao norte do país, à zona de Caminha, terra da minha avó materna, onde passei grande parte dos verões da minha juventude. Durante aqueles três dias não houve um único em que não tivesse chovido com insistência. Àquelas terras não se chama Verde Minho por simples coincidência…

Numa das tardes, mesmo com a chuva no céu, decidi ir até à praia de Moledo. O final da tarde estava cinzento, mas o céu ameaçava abrir. Fui aproveitando as formas existentes num céu de cinzento carregado e a bravura do mar para fazer algumas imagens, mas também me detive no chão rochoso da praia e nos detalhes marítimos que sempre me fascinaram.

Perto do pôr-do-sol, a chuva parou e o céu abriu. A cor começou a tomar conta daquele anfiteatro natural e noutra altura desta minha viagem, isto seria suficiente para me deixar com um formigueiro na barriga, com aquela excitação de quem tem pouco mais de dez minutos para mostrar o que vale. Surpreendentemente, desta vez, não quis saber. Continuei de câmara apontada para baixo, a fotografar um reflexo do dourado que o céu pintava sobre uma rocha molhada.

Praia de Moledo (26/03/2016 – 18:41), Canon EOS 5D Mark III, 1s@f/16, ISO 100

Praia de Moledo (26/03/2016 – 18:41), Canon EOS 5D Mark III, 1s@f/16, ISO 100

Olhando agora para esse momento de revelação, com o distanciamento que ele exige, consigo sugar a sua genuína simplicidade. Foi algo que aconteceu de forma natural, sem qualquer esforço, fruto de uma viagem intensa que começou há mais de 10 anos numa manhã chuvosa na Serra de Sintra.

Hoje, na frase de um amigo podia ler-se, “mais do que saber o que fotografar, é saber o que não fotografar”. Também ele filosofava após 10 anos a fazer fotografia. Esta frase resume, na essência, a experiência que senti naquele fim de tarde em Moledo do Minho, de forma consciente e apaixonada.

Depois das cores do céu se desvanecerem, pude voltar a colocar a grande angular para registar um cenário mais aberto, sem o excesso de açúcares provocado por mais um céu inebriado. Foi a última fotografia que fiz naquele dia, soltando um gosto diferente na minha boca, talvez menos doce, mas com um sabor mais duradouro e capaz de se renovar.

E é assim que acaba mais esta etapa da minha viagem. A partir de agora, acabaram-se as drageias de rosa eléctrico com recheio de morango e amora, que teimam em encher os bolsos dos fotógrafos de paisagem natural, mas cujo sabor sabe sempre ao mesmo e depressa se esvai. Chega a um ponto em que tanto doce começa a ser enjoativo. Estou definitivamente pronto para um degustação diferente e mais elaborada!

 

3 Comentários

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    Parabéns pela “Libertação”, percorreste o teu próprio trajeto até à desintoxicação desse recheio de morango e amora. Mais uma grande crónica em forma de relato histórico desde o teu inicio fotografico e na tua própria evolução e aprendizagem. Espero um dia também eu ter a capacidade de deixar os Doces 😉

  •    Responder
    Maria Duarte Ferreira Abril 15, 2016 at 1:08 pm

    Luís, mais uma excelente crónica que nos faz reflectir. Faço uma comparação com a nossa vida e o clima. O facto de termos ao longo do ano chuva, sol, vento, neve, frio e calor permite-nos desenvolver um sem número de actividades diferentes, com estados de espírito variados. Transportando isso para a fotografia, é mesma coisa. A natureza é bela e surpreendente em todas as suas facetas. E se queremos evoluir, temos de sair a nossa zona de conforto e ir à descoberta.

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    Adorei o post e perceber o teu trajeto na fotografia da natureza. É engraçado como há tanto para descobrirmos sobre nós próprios se escolhermos não fechar os olhos!
    Beijinhos grandes

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