Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Coração Selvagem


As redes sociais vivem à custa da imagem: da imagem que as pessoas pretendem passar delas e do mundo e das imagens que as pessoas partilham enquanto passam a imagem que pretendem mostrar delas e do mundo. Parece complicado, certo? E é-o, pois qualquer meio que sobreviva à custa das aventuras e desventuras do ser humano é sempre complexo.

A mais famosa das redes sociais foi criada com base na imagem. Quem não se lembra da cena do filme “A Rede Social” de 2010, onde o jovem Zuckerberg, interpretado por Jesse Eisenberg, faz upload de umas imagens de alunos da escola para posteriormente serem postas ao escrutínio da comunidade. A ditadura do “gosto”, espalhada pelas mais diversas plataformas – virtuais e reais -, implantou-se como um vírus nas nossas vidas e é difícil fugir dela, quer sejamos produtores ou consumidores de imagem.

Zuckerberg não é um génio, nem foi ele o inventor da rede social. Mas ao simplificar o processo de julgamento e ao permitir que, de uma forma simples e rápida, todos possamos ser actores principais desse julgamento, fez com que a vida de todos nós, em especial dos mais influenciáveis, se tornasse mais pobre. Mesmo que pensemos o contrário, tal é o poder que nos é oferecido para participar na vida dos outros. É como se vivêssemos num “Prós e Contras” eterno, com livre trânsito para falarmos sempre que quisermos.

Experimentem navegar 5 minutos pelo vosso facebook. Contem esse tempo enquanto eu espero. Repararam na mediocridade das imagens que passam no vosso mural e na falta de envolvimento que as mesmas produzem? Agora sigam a vossa vida por mais 15 minutos longe do computador. Lembram-se de algo relevante que aqueles 5 minutos trouxeram à vossa vida? É preciso estar muito farto de andar para cima e para baixo no facebook, instagram e afins para fazermos a nós próprios estas questões e, no que a mim me diz respeito, eu estou bastante.

Embora não tenha sido dos primeiros a aderir ao facebook, tenho-o usado com alguma constância nos últimos anos, em especial para partilhar alguma da minha fotografia e aquilo que faço à volta dela. Por essa razão, o meu perfil pessoal raramente é utilizado para partilhar conteúdos, concentrando essa publicação na minha página como fotógrafo. Mas embora os conteúdos sejam partilhados na página, sou “obrigado” a participar na comunidade, não como o Luís Afonso fotógrafo, mas como o Luís Afonso do perfil pessoal. Como é óbvio, o Luís Afonso vive para além da fotografia e é complicado aceder a um mundo virtual onde todos os meus universos se encontram misturados.

Deixando de lado esta parte mais pessoal e concentrando-me exclusivamente na fotografia – que é isso que interessa neste blog – tenho usado o facebook nestes últimos tempos para manter contacto com outros amigos, para descobrir novos fotógrafos, para acompanhar as pessoas que passam pelas minhas acções de formação e passeios, para perceber que eventos existem perto de mim e para, claro está, partilhar a forma como a minha fotografia vai caminhando e divulgar algumas iniciativas que vou lançando. Tal como a publicação deste artigo.

Em tudo isto, olhando para trás e fazendo um reflexão mais ou menos consciente, há um sentido de perversão que não me agrada minimamente e à qual tenho tentado fugir nos últimos tempos ao ponto de, hoje em dia, poucas vezes me apetecer abrir o facebook, pois sei que o que vou encontrar é o mesmo de sempre…

E é contra este “mesmo de sempre” que alguém que, como eu, olha para a fotografia como um meio de expressão artística, deve lutar.

Hoje em dia, comercial e pessoal são adjectivos que habitam o mesmo espaço. As pessoas são levadas a querer aquilo que os outros querem que elas queiram, pensando que o que elas querem são escolhas pessoais. Os likes, retweets, pulses e seguidores são preço, moeda e valor de tudo o que se passa à nossa volta, fotografia incluída. O valor da de uma “foto” mede-se em likes – e infelizmente, nunca em “dislikes” -, a popularidade dos locais a fotografar em valores de 1 a 5 (no google maps), mesmo quando fora da bolha ninguém nunca ouviu falar do criador de tais fotografias ou dificilmente se entenda o porquê de se classificar estes locais e o que essa classificação significa. Os locais, desculpem, os “spots“, são escolhidos pelo número de likes que podem gerar e quantos mais conseguirmos percorrer num dia, mais oportunidades teremos de ser populares, de sermos o “Photographer of the Day“, de colocarmos bandeira em mais uma tribo de seguidores.

Eu falo por experiência própria. Há mais de 10 anos atrás, quando as primeiras redes sociais ligadas à fotografia foram criadas, também eu esperava junto do botão de “refresh” pelo “likes” e comentários às minhas fotografias. Era assim que funcionava no Trekearth, a primeira comunidade onde participei. No 1000imagens, a primeira comunidade portuguesa ligada à fotografia, fazia-se o concurso da melhor do dia e enquanto não colocasse a minha fotografia no topo da pirâmide nunca podia ostentar o título de fotógrafo.

Tudo isto tem um preço. A fotografia que produzimos passa a ter o objetivo de agradar aos outros, de seguir o que é popular, de ser um hino à mediocridade. E se alguns tomam consciência disto e abandonam a prática da fotografia como se de um concurso diário se tratasse, a maior parte vive indiferente e deixa-se enganar de forma mumificada, pensado que o que está a fazer é fruto da sua individualidade quando é exatamente o contrário aquilo que norteia a “sua criação”.

A maximizar toda esta surdez está o facto de as próprias marcas usarem este status quo para expandirem a sua pegada. Hoje em dia usam-se os fotógrafos mais populares para divulgar os seus produtos. Antigamente usavam-se os melhores como o modelo, actualmente não é preciso ser bom para se ser embaixador de uma marca, basta ser-se popular. E o mais grave de tudo isto é quando quem segue acha que ser popular é sinónimo de qualidade.

Quando uma marca usa um adolescente, com milhares de seguidores no youtube, que nada tem a acrescentar de valor à cultura de um povo, como a bandeira de uma marca, está tudo dito.

A sociedade em que vivemos, em que vive a nossa fotografia, está reduzida a uma realidade em que comércio e superficialismo habitam o mesmo espaço. É mais barato pagar a um popular copycat do que a um editor de fotografia. É mais barato oferecer-se um tripé a um fotógrafo popular e esperar pela sua “critica justa” do que pagar a uma empresa de comunicação para promover a marca. E quando se paga, é a própria empresa de comunicação a procurar no facebook a quem deve oferecer o tripé… Há um défice de curadoria em todas as áreas, pois esta curadoria implica sabedoria e a sabedoria custa dinheiro. Os editores de fotografia estão a desaparecer das redações das revistas e jornais e até as publicações de referência estão a entrar no mundo do populismo e da recompensa fácil. Procurem, por exemplo, pelo editor de fotografia da edição portuguesa da revista National Geographic ou do jornal Observador e quando os encontrarem enviem-me o contacto para lhes fazer umas perguntas.

Quem tem a perder com esta realidade somos todos nós, apaixonados pela fotografia. Pela boa fotografia que se produz, também em Portugal, e que está cada vez mais ausente dos sítios onde estão a maior parte das pessoas.

Querem um conselho? Deixem de a procurar nas redes sociais e procurem-na em locais onde há editores, criadores e pessoas que vivem e pensam a fotografia, longe da teia de mediocridade das redes sociais. Comprem livros, conversem com os loucos que teimam em manter livrarias especializadas, consultem os sites dos autores que admiram e estejam atentos a quem aponta defeitos à vossa “fotografia do dia”. E desliguem os smartphones, saindo de casa para fotografar sem ideias pré-concebidas de produzir mais um cliché. Adaptando a famosa frase de Cyril Connoly, substituindo o verbo escrever por fotografar, “é melhor fotografares para ti próprio e não teres qualquer público, do que fotografares para o público e não teres um eu próprio”.

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