Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Fotografia: Ficção ou Realidade?


Este fim-de-semana, no decorrer de um curso de edição que estou a dar pela Primeira Luz, entreguei aos participantes um questionário de avaliação. Na primeira pergunta podia ler-se: “Edição é sinónimo de adulteração da imagem. Verdadeiro ou Falso?” Eu tinha a certeza que todos iriam responder prontamente falso, mas não foi isso que aconteceu. Uma saudável discussão plantou-se no seio do grupo.

A fotografia foi inventada por cientistas e pintores, pessoas que na época podiam ser consideradas evoluídas na sua educação e no seu conhecimento científico e cultural. Mas rapidamente o meio se democratizou e qualquer pessoa habilidosa podia operar uma câmara fotográfica. Dezenas de sapateiros, tipógrafos, funileiros, ferreiros, entre outros, tornaram-se os primeiros fotógrafos profissionais. A partir desses dias, aquilo que a câmara “gravava” tornou-se verdade. E esta verdade é, ao mesmo tempo, a maior das limitações, mas também a mais transcendente das qualidades da fotografia.

Hoje em dia, existem milhões de fotógrafos. Tal como no início da fotografia, a maior parte deles não tem qualquer formação artística. Para quase todos, as fotografias tiram-se, não se fazem. E quando uma fotografia é tirada, é impossível alterar a doce tristeza da verdade: aquilo que a objectiva “vê”, fica gravado para sempre. Tudo o que possa ser diferente disso é mentira, ou seja, adulteração da realidade.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, uma fotografia é e será sempre apenas um fragmento da realidade. Um fragmento no espaço temporal e físico que constitui a nossa vida. Nenhuma fotografia pode, por essa razão, apresentar toda a verdade ou, se preferirem, a verdade no seu todo. O fotógrafo ao escolher um plano está já a fazer uma escolha – consciente ou inconsciente – sobre a realidade que se desenrola perante si. Para além disso, o tempo finito representado por aquela fotografia encerra nele próprio uma limitação da verdade. Se eu fotografar uma bala a dois milímetros de uma cabeça estarei a representar a verdade, mesmo naquele instante?

Em segundo lugar, se deixarmos de lado este esquartejar da verdade pelo fotógrafo e nos concentrarmos na imagem final que é gravada no sensor da câmara, também aqui a realidade por ser completamente destorcida. A escolha da objectiva, dos filtros que colocamos sobre ela, da profundidade de campo, do equilíbrio de luz, tudo isso altera a forma como a realidade é apresentada e não é difícil que essa representação seja radicalmente diferente daquilo que vemos ou o fotógrafo viu na altura em que tirou a fotografia.

Mas até aqui, nada disto parece chocar a maior parte dos “fotógrafos”. Para quase todos, tudo isto é fotografia inalterada.

O problema nasce quando depois daquilo que o sensor guarda é feita alguma coisa sobre os zeros e uns que constituem o nosso ficheiro digital. O mesmo se passava no tempo do analógico, mas aí a linha começava logo no momento em que a película ou a chapa saia da câmara.

Eu vou deixar passar o facto da maior parte das pessoas que fotografam desconhecer que quase todas as fotografias são editadas na própria câmara. Qualquer ficheiro JPG produzido pelas modernas câmaras digitais é editado, não pelo fotógrafo, mas pela própria câmara e pelos engenheiros que se sentam nas instalações dos diversos fabricantes. Tal como eram editadas as fotografias que levávamos a um laboratório para serem impressas. Desculpa dizer-te, mas aquelas fotografias de cor magenta que uma vez te entregaram não foram culpa tua, mas sim do revelador, operador, impressor. Enfim, do editor…

Considerando que a maior parte dos que me leem sabem o que é um ficheiro RAW, o chamado negativo digital, certamente também perceberão que publicar esse mesmo negativo é algo que faz pouco sentido. Simplesmente porque aquilo que ele representa ainda está muito distante daquilo que o fotógrafo quis dizer e da fotografia que quis fazer. Mesmo daqueles que nada querem dizer e que em vez de fazer fotografias as tiram.

Tal como um poeta ou um romancista não publica os seus manuscritos, um músico não manda para as lojas os seus “demos” como álbum principal, ou o cineasta os seus clips em bruto, também um fotógrafo não devia partilhar os ficheiros que saem da câmara sem os editar. Mas para alguns, isto é subverter a realidade…

Desde que descobri o Lightroom em 2006 e comecei a fotografar em RAW, não há uma única fotografia minha que seja mostrada a alguém que não esteja editada. E quando digo a alguém é a verdade; nem a minha família mais próxima vê fotografias minhas que não estejam editadas. E a razão é única e simples: elas não existem antes disso.

Para os que, como eu, olham para a fotografia como um meio de expressão artística, capaz de dizer algo mais do que apenas “isto foi o que a câmara captou” ou “isto foi o que eu vi“, a edição torna-se parte integrante dessa criação. A captura é apenas o começo e muitas vezes nem é a parte mais importante ou difícil. No domínio da fotografia de natureza onde me insiro, isto às vezes é visto como uma afronta, pois os seus praticantes estão habituados a olhar para ela como um meio de divulgação da verdade. Mas quando pretendemos mostrar o sentir, a emoção, o subjectivo, por vezes a verdade complica e dificulta a mensagem.

Baudelaire disse um dia que “esta indústria, ao invadir os territórios da arte, tornou-se no seu maior inimigo“. A fotografia, a partir do momento que permitiu ao artista dizer algo mais do que este bicho tem o peito ruivo ou esta árvore tem folhas verdes e compridas, abriu uma guerra mortal consigo própria. E a prova disso foram as respostas à minha questão e o infindável debate que a mesma sempre gera nos mais variados fóruns.

Termino com outra pergunta. E vocês, quantos fotógrafos conhecem que pensam que editar uma fotografia é subverter a realidade? A minha resposta é simples: eu não quero saber dessa verdade, apenas quero ser verdadeiro comigo próprio e com todos aqueles que sentem algo ao contemplar a minha fotografia.

Agora desculpem-me, mas tenho fotografias para editar!

3 Comentários

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    Fernando Gonçalves Janeiro 9, 2017 at 10:57 pm

    Gostei MUitO deste artigo!
    Veio-me imediatamente à cabeça um pensamento com o qual me identifico completamente, traduzido numa frase célebre e feliz de Saint-Exupéry:
    “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”…
    Sinto que esta visão do coração está presente em primeiro lugar nas fotos deste fotógrafo excepcional, que na sua edição materializa a sua sensibilidade e torna visível aos nossos olhos obras de grande beleza

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    Luis Perdigao Junho 8, 2017 at 5:45 pm

    “O Artista não é um tipo diferente de pessoa, mas toda pessoa é um tipo diferente de artista…”

  •    Responder
    Luis Perdigao Junho 8, 2017 at 5:47 pm

    Muito grato Luís pelo excelente texto. Descobri agora e já tornou-se o meu grande favorito.

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