Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Fujifilm: o meu regresso ao APS-C


Há exatamente 5 anos fotografei pela primeira vez com uma câmara Fujifilm. Ainda podem ler o relato dessa experiência aqui no blog. Desde então, a tecnologia das câmaras sem espelho (mirrorless no seu termo em inglês) avançou, como toda a tecnologia tem o condão de fazer, e as câmaras de hoje estão muito mais avançadas, fruto de uma tecnologia completamente madura e estabilizada. Cinco anos nesta área é muito tempo. O próprio mercado também mudou e as dSLR deixaram de ser aposta, quer de fabricantes, quer de consumidores. Hoje em dia, no momento de escolher uma nova câmara, já poucos olham para as dSLR como a opção mais correta (salvo em raros casos).

Há 5 anos atrás eu usava uma câmara full frame. Trocando por miúdos, significa que o sensor que a equipava tinha 36mm de largura por 24mm de altura, um tamanho herdado do filme de 35mm. Uns anos antes, mais precisamente seis, tinha comprado a minha primeira câmara full frame (fevereiro de 2009). Na altura, as razões que o justificavam eram exactamente as mesmas que o justificam agora: tinha de ser. Se queria ser alguém no mundo da fotografia tinha de usar uma câmara full frame.

Como é óbvio, da Canon EOS 30D para a Canon EOS 5D Mark II o salto qualitativo foi considerável. Embora a 5D fosse mais pesada, mais lenta a disparar no modo contínuo e tivesse os mesmos 9 pontos de focagem, trazia 21,1 megapixels em vez dos 8,2 da 30D. E era full frame!

Mas o mais importante de tudo foi que passei a poder usar as minhas objetivas sem qualquer fator de conversão o que, diga-se de passagem, facilitava na matemática. Para saber o que é isto do fator de conversão das objetivas pode ler este artigo aqui no blog.

Neste processo evolutivo, tive que me livrar das minhas objectivas exclusivamente construídas para o formato APS-C, como a saudosa Sigma 10-20mm. Tive também de comprar um novo sistema de filtros de 100mm pois, com o novo sensor, as objetivas grande-angular precisam de novos acessórios para não fazer vinhetagem. E como o sensor full frame precisava de objectivas de maior qualidade (diziam os entendidos) “investi” em novas da série L da Canon.

Esta passagem de APS-C para full frame fez-me gastar muito dinheiro, como é natural. Mas em termos fotográficos o que mudou? O que consegui fazer com a nova full frame que não conseguia fazer com a APS-C? Rigorosamente nada… Mas estava feliz e isso também traz impactos na nossa fotografia.

Canon EOS 30D, Sigma 10–20mm f/4–5.6 EX DC HSM, 1,6s a f/16 ISO 100

Em maio de 2011 comecei a interessar-me pelas câmaras sem espelho. Nessa altura, a portabilidade do sensor micro 4/3 (com um tamanho de 18mm por 13,5mm) deixou-me a pensar como tudo ficaria muito mais leve, com objetivas pequenas e imaginei o que seria levar todo o meu equipamento numa mochila com 1/3 do tamanho da que tinha na altura. Para quem se movimenta no campo como eu, essa visão era muito apelativa. Fui ter com a Panasonic que gentilmente me emprestou uma GF2 e uma G2 com as quais passei uns dias. Em jeito de saudosismo, podem ler o relato dessa experiência também aqui no blog.

O sensor micro 4/3 deixou-me com óptimas impressões, mas o que impressiona na realidade é a portabilidade de todo esse universo. Ainda há poucos meses, em Ovar e em Manteigas, em contacto com os simpáticos embaixadores e responsáveis da Olympus, pude ver o formato em acção, naquela que é atualmente a sua melhor implementação e voltei a ficar impressionado. Foi muito interessante ver a pequena mochila do João Abreu, responsável comercial da Olympus em Portugal, com uma panóplia de objetivas e corpos topo de gama, impensável numa versão full frame, onde seria preciso quase a mala de um carro para transportar tudo aquilo.

Em 2015, poucos meses depois de ter experimentado a X-PRO1, comprei a minha primeira câmara Fujifilm. A X-T1 era a mais indicada para me iniciar no sistema X e a ela juntei apenas uma objectiva: a XF23mm F1.4R. Voltei a ter de fazer contas para entender o factor de conversão a aplicar às objetivas que equipavam o sensor APS-C da X-T1. Se o sensor mede 23,6mm por 15,7mm o factor de conversão será 1,5x, logo a objetiva equivale a uma 34,5mm no formato full frame, ou seja, uma clássica 35mm. Mesmo o que eu precisava!

Fujinon XF23mmF1.4 R- 1/35 a f/5.6 ISO 500

Na altura, a ideia era continuar a usar o sistema full frame para o meu trabalho de fotografia de natureza – até porque não tinha dinheiro para comprar todas as objectivas que precisava – e passar a usar a pequena Fuji em tudo o resto: fotografia de rua, workshops e passeios fotográficos, família, viagens, etc. Para além disso, prometi a mim mesmo que apenas compraria objetivas de focal fixa (as chamadas prime). Ou seja, a ideia era experimentar um sistema mirrorless mais a sério e perceber se o formato tinha pernas para andar na minha fotografia e no meu modo de fotografar.

Um caminho sem retorno

Quem já experimentou uma câmara sem espelho sabe que dificilmente há volta atrás. O facto de pela primeira na vida estar a ver aquilo que vou fotografar, ou seja, a captura final, é algo que não se consegue voltar a perder. E quando regressava à dSLR, tinha que me lembrar que existia um fotómetro e que a profundidade de campo teria de ser entendida, percepcionada e nunca visualizada (sim, eu sei que existe aquele botão de pre-visualização da PdC nas dSLR e também sei que não serve para nada no mundo real).

Poucos meses depois adquiri a XF56mm F1.2R, objectiva equivalente a uma 85mm, para usar num projecto de retrato que estava a fazer na altura (lxfaces.pt). Depois dessa, vieram muitas mais objetivas até que em 2018 disse a mim mesmo que estava na altura de largar o formato full frame e abraçar de novo o formato APS-C. E com essa decisão chegou a Fujifilm X-H1, uma das melhores ferramentas de criação fotográfica que alguma vez pude adquirir.

Fujifilm X-H1, Fujinon XF100-400mmF4.5-5.6 R LM OIS WR, 1/15 a f/16 ISO 200

Neste processo vendi todo o meu material full frame, por metade do preço que tinha comprado e substitui tudo por material Fujifilm. Neste movimento ajudou o facto do material Fuji ser consideravelmente mais económico. Neste momento tenho exactamente as mesmas objectivas que tinha então. E as objectivas e a qualidade das mesmas são uma das principais razões porque escolhi fotografar com Fuji e não com outra marca qualquer. Basta olhar para a objectiva de kit que vinha com a X-T1 para perceber porquê. Ao contrário das objetivas de plástico que vêm com as congéneres APS-C das dSLR, a Fuji coloca na caixa, por mais 300€, uma objectiva em metal, com abertura f/2.8-f/4 e com uma qualidade de imagem e de construção que rivaliza com as objetivas de anel vermelho que ainda tinha lá por casa.

Neste momento, não voltaria atrás e vou explicar porque considero o formato sem espelho APS-C, neste caso da Fuji, a melhor opção para a minha fotografia.

Qualidade de Imagem

É certamente uma das grandes preocupações para quem fotografa embora, como me disse um amigo há mais de 15 anos, quando tudo o que me preocupava era ter o histograma à direita e tudo nítido nas minhas imagens de paisagem natural, “sharpness is hugely overrated. What really matters is emotion, not pixels”. A juntar a isto está o facto de qualquer câmara dos nossos dias ser muito mais apetrechada tecnicamente do que as que produziram as grandes imagens do século passado. Alguém duvida?

Há uma noção, errada, que os sensores full frame produzem imagens de melhor qualidade do que os APS-C ou micro 4/3. E nem estou a falar da componente artística… Como é óbvio, neste momento, isso não faz qualquer sentido, mesmo em termos técnicos.

Para terem um ideia, a qualidade de imagem que eu retiro da X-H1 é muito superior aquela que tirava da última câmara full frame que tive. A gama dinâmica do sensor que equipa a X-H1 é maior (infelizmente os senhores da DXO ainda não sabem medir a gama dinâmica dos sensores X-Trans, por isso vão ter de acreditar na minha experiência), a latitude de edição também, a resolução idem (24,3 megapixels em vez de 22,3) e o nível de ruído em altos ISOs muito melhor. Mas tudo isto podem comparar em sites que se dedicam a comparações técnicas (por exemplo: https://www.dpreview.com/reviews/image-comparison). O que realmente me interessa é aquilo que o sensor produz no terreno para o tipo de fotografia que eu faço.

Uma rápida consulta ao meu catálogo de fotografia de natureza diz-me que o ISO mais alto que alguma vez utilizei (desde 2006) foi 6400 (por 12 vezes), seguido de 3200 por 53. Fui igualmente ao meu catálogo de fotografia de desporto (râguebi) e usei ISO 3200 ou superior 145 vezes em 8972 das fotografias guardadas (ou seja, 1,6%). Eu sei, podem dizer-me que os fotógrafos de vida selvagem ou de eventos usam ISO 6400 a toda a hora, mas isso é um problema para eles resolverem. Ainda assim, fui espreitar o catálogo aqui do lado, de uma excelente fotógrafa de família e eventos e das 15008 fotografias existentes no seu arquivo mais recente, 653 foram realizadas a ISO 3200 ou superior o que dá uma percentagem de 4,35%. Uma amiga que faz fotografia de espectáculo e trabalha sempre em ambientes onde a luz natural não existe tem cerca de 8569 fotografias realizadas a ISO 3200 ou superior das 60660 que tem no seu arquivo (14%). Como é óbvio isto são apenas estatísticas. Para quem é profissional e tem de entregar fotografias a um cliente, as cruciais podem mesmo ser as realizadas a 3200 e superior. Para quem fotografa paisagem como eu, ou para a maior parte dos que vão ler este artigo, adquirir uma máquina que seja perfeita a ISO 6400, ignorando todos os restantes atributos não fará muito sentido. Ou gastar mais uns milhares de euros para poder usar 12 vezes o ISO 6400 sem um pingo de grão também não me parece muito sensato. Não obstante tudo isto, se usarem o comparador cuja ligação indiquei acima poderão ver que a X-H1 a ISO 3200 aguenta-se bem contra qualquer concorrência. Mas o que me interessa não são os resultados de laboratório mas sim o que ela consegue no terreno. Aqui fica um exemplo editado e o RAW de uma das poucas imagens produzidas a ISO 3200. Podem descarregar e comprovar por vós mesmos.

Fujifilm X-H1, Fujinon XF100-400mmF4.5-5.6 R LM OIS WR, 1/30 a f/16 ISO 3200
Descarregue aqui o RAW [48,19MB]

A qualidade de imagem é sem dúvida muito importante porque nos possibilita concentrarmos o nosso trabalho no resultado final com confiança. Saber que a fotografia está lá é muito importante. E é isso que eu sinto quando fotografo com a minha X-H1. Sem pensar no tamanho do sensor que estou a usar.

Se precisar de usar ISO 3200 uso-o com confiança. Se precisar de sub-expor e depois recuperar as sombras em edição, faço-o. Se uma imagem ficar sobre-exposta e precisar de a recuperar mais tarde, estou confiante que o vou conseguir. Mas isto são excepções à regra, pois no meu dia-a-dia a minha X-H1 ajuda-me a capturar as fotografias como eu quero, com a luz que eu quero, com a exposição que eu quero. Tal como qualquer outra câmara de qualidade. Mais importante na X-H1 é o corpo estabilizado, o excelente visor eletrónico, o sistema de auto-foco preciso ou todos os elementos que a câmara me oferece para realizar o tipo de fotografia que eu faço no terreno. Porque, mais importantes que as especificações, são os resultados que nas mãos do fotógrafo essas especificações permitem fazer. E não é o tamanho do sensor que me vai impedir de criar as fotografias que eu quero criar. Nunca foi. Nunca será.

Imagem Sub-Exposta e respectiva edição. Esq: original, dir: editada no Lightroom.
Fujifilm X-H1, Fujinon XF100-400mmF4.5-5.6 R LM OIS WR, 1/125 a f/22 ISO 200
Descarregue aqui o RAW [47,85MB]

Custo

Uma das maiores vantagens do sistema APS-C da Fujifilm é a sua relação qualidade-preço. Como vos falei, as objetivas são do melhor com que já fotografei. Não encontro qualquer diferença de qualidade negativa entre as objetivas da Fujifilm e as da série L da Canon que são excelentes e com as quais trabalhei diariamente durante anos. Por exemplo, a fabulosa EF 70-200mm f/2.8L IS II USM da Canon tem um rival à altura na FUJINON XF 50-140mm F2.8 R LM OIS WR. Ambas têm uma qualidade de construção fabulosa em metal e uma qualidade óptica do melhor que se produz. Sempre achei estes zooms do melhor que se consegue obter em termos de recorte e definição. Mas vamos ao preço (deixamos o peso para depois). A EF custa cerca de 2300€ enquanto que a XF custa menos 800€, 1495€ na minha loja de referência. Outro exemplo, com outra marca. A fabulosa Fujinon XF 56mm F1.2 R, perfeita para retratos, custa 945€ na mesma loja. A sua concorrente Sony, a FE 85mm F1.4 GM, que presumo ser excelente sem nunca a ter usado, custa mais 900€… Não será preciso explicar porquê. Tem a ver com o custo das matérias primas, o tamanho das mesmas, da boca da objetiva e do sensor que têm de cobrir. Em termos de qualidade, desafio-vos a encontrar diferença negativa nas Fujinon que justifique a diferença de preço abismal. Se calhar, até ficaremos todos surpreendidos com a qualidade das Fuji em relação à concorrência. Pela minha experiência, posso-vos garantir que não perdem nada. Antes pelo contrário.

Fujifilm X-H1, Fujinon XF50-140mmF2.8 R LM OIS WR, 1/8 a f/11 ISO 200
Descarregue aqui o RAW [48,21MB]

Poderia também fazer a mesma comparação com o preço do corpo mas penso não valer a pena. O formato APS-C será sempre mais barato, pois o custo de produção do sensor é muito mais vantajoso.

Portabilidade

No que diz respeito à portabilidade – uma das grandes vantagens das câmaras sem espelho e um dos principais factores que me levou a mudar – é preciso ter em conta uma característica muito importante e a razão pela qual penso que a Fujifilm tomou a decisão mais acertada quando decidiu fazer a melhor APS-C do mercado e resistiu em fazer uma mirrorless full frame. Não vou comparar o meu equipamento atual com o que tinha anteriormente em termos de peso e espaço ocupado, pois percebem que isso já não faz sentido. Basta partilhar que antigamente usava uma mochila de 30L (38,5x30x52cm) e que passei a usar uma de 24L (28x15x42cm), sendo que hoje em dia levo mais material para o terreno do que antigamente, ocupando menos espaço e pesando consideravelmente menos.

Mochila com Corpo, 5 objectivas, 1 extender e flash

Mas o que gostava de partilhar convosco é uma comparação de portabilidade entre os sistemas sem espelho APS-C e full frame. Usemos o site camerasize.com para nos ajudar. Vamos comparar uma câmara mirrorless full frame com a minha X-H1. Por exemplo, a Sony A7III.

Resultados:

  • A X-H1 é 10% (12.9 mm) mais larga e 2% (1.7 mm) mais alta que a Sony A7 III.
  • A X-H1 é 16% (11.8 mm) mais grossa que a Sony A7 III.
  • A X-H1 [673 gr] pesa 4% (23 gr) mais que a Sony A7 III [650 gr] (inc. bateria e cartão de memória).

Até aqui tudo equilibrado como seria de prever. Agora vamos juntar-lhe uma objectiva. Pode ser a mais indicada para retrato que já abordei acima em termos de preço.

Podem ver os resultados através desta ligação: https://j.mp/3bbTzCR

O conjunto Fuji pesa 673gr+405gr=1,08kg enquanto o Sony pesa 650gr+820gr=1,47kg (36% mais pesado). A objectiva Sony pesa mais do dobro do que a Fuji… Em termos de tamanho na mochila, o kit da Fuji também ocupa menos espaço, algo a ter em conta quando as objetivas são para sair de casa.

Podia repetir esta comparação com diferentes marcas e diferente modelos. É até interessante perceber que as objectivas para sistemas mirrorless full frame são maiores e mais pesadas (nalgumas das principais marcas) do que as suas equivalentes para dSLR. Usem o mesmo site e façam essa comparação.

Se o que procura, tal como eu, ao mudar para um sistema sem espelho é portabilidade e redução de peso, então não fará qualquer sentido optar por um sistema mirrorless full frame. Não vai ganhar absolutamente nada. Antes pelo contrário. Se quer o meu conselho, mais vale ficar com a sua dSLR que tem melhor usabilidade, é mais resistente (os componentes são maiores e por isso normalmente mais robustos), já está habituado a ela e não tem que gastar qualquer dinheiro na mudança. Lamento dizer-lhe, mas não irá fazer melhores fotografias com uma mirrorless full frame.

Mas se procura portabilidade, então encontra no sistema da Fuji o melhor equilíbrio entre peso e espaço ocupado na mochila.

Qualidade e Disponibilidade das Objectivas

Quando se muda de sistema o principal foco está sempre na qualidade e na disponibilidade do equipamento. Quando comprei a X-T1 o número de objectivas Fuji disponíveis era bom, mas não o suficiente para suprir todas as minhas necessidades. Por exemplo, faltava uma das objectivas zoom que mais usava, a 100-400. Hoje em dia, o sistema X da Fuji conta com 25 objectivas que cobrem todas as minhas necessidades. Desde grandes angulares a teleobjectivas, apenas falta à na linha Fujinon uma teleobjectiva fixa de grande alcance que possa ser usada em desporto e vida selvagem, como uma 400mm ou 600mm. De resto, não há objectiva que a Fuji não ofereça a quem deseje entrar no seu universo.

Em termos de qualidade, quer de construção, quer óptica, tenho a partilhar, por experiência própria, que as objectivas da Fuji são excelentes. Muito bem construídas, quase todas em metal e com excelente qualidade óptica. Ainda está para aparecer uma objetiva na minha mochila que eu considere menos boa, como as que já tive no passado que apresentavam falta de definição quando se saia do centro da imagem. Com as Fujinon nunca senti isso, antes pelo contrário. Há que perceber que a marca japonesa já faz objectivas de qualidade há muitas décadas. Como é óbvio, há umas que gostamos mais do que outras, umas mais rápidas a focar do que outras, mas todas elas têm uma coisa em comum: a sua excelente qualidade óptica. Não é por isso de estranhar que uma das primeiras marcas a fazer objectivas para o sistema X da Fuji o tenha abandonado pouco depois (Zeiss). É que na verdade, não vale a pena comprar objectivas de outra marca. Pelo menos, até ver.

Depois e para fazer face a outro dos grandes mitos do full frame vs APS-C, a Fuji tem vindo a apresentar no seu portfólio modelos com aberturas grandes como f/1.4, f/1.2 e mesmo estando pronta a lançar uma f/1.0. Como dizem os entendidos, o factor de conversão do APS-C nas objetivas aplica-se também às aberturas e ao desfoque que produzem. Ou seja, para se conseguir o mesmo desfoque ou profundidade de campo de uma 85mm f/1.4 full frame é preciso uma 56mm f/1.2 no formato APS-C. Como é óbvio, no mundo real, há outros factores a ter em conta, como a distância do fundo ao objeto fotografado, a própria distância ao elemento fotografado, entre outros aspectos que não vale a pena aqui falarmos. O que é certo é que eu, se quiser ter apenas um fio de cabelo focado com a minha XF56mm a f/1.8, o posso fazer. Nem preciso de ir a f/1.2. Mas para que não existam desculpas, a Fuji disponibiliza objectivas que permitem alcançar a mesma qualidade de desfoque que as outras marcas.

Fotografia realizada com a Fujinon XF56mmF1.2 R, 1/640 a f/1.8 ISO 200

Conclusão

O objectivo deste artigo não é fazer uma comparação técnica entre formatos, entre sistemas, entre marcas. Se era isso que procuravam, peço desculpa por vos ter desapontado. Estou certo que na internet não faltarão exemplos a dizer maravilhas ou coisas menos boas de tudo aquilo para onde quisermos apontar. O que me interessa aqui partilhar convosco é a minha experiência, de alguém que usa a fotografia com um meio de expressão artística e que tem a mochila sempre pronta para sair para o terreno e ir fotografar.

A minha primeira câmara foi comprada no inverno de 1997. Uma SLR que usava rolos de 35mm. Produzia imagens excelentes, soubesse eu tirar partido dela. Por certo, ainda hoje o faria. Por volta do anos 2000 comprei a minha primeira câmara digital e pouco depois a primeira dSLR, a fantástica e revolucionária Canon EOS 300D. Usei APS-C durante 10 anos, depois full frame mais 10 e agora voltei ao APS-C. Não pretendo voltar ao full frame pelas razões que indiquei. Para o tipo de fotografia que faço, não faz qualquer sentido, na minha opinião.

Sou uma pessoa racional, mas também prática. Se tivesse todo o dinheiro do mundo, compraria uma médio formato para o meu trabalho de paisagem e manteria a X-H1 ou equivalente para vida animal (que é beneficiada pelo facto de conversão das objetivas). Se apenas o tamanho do sensor contasse, então optaria por uma GFX50S ou uma GFX100. Estou certo que os que advogam que full frame é que é concordariam comigo. Mas como preciso de portabilidade, disponibilidade de objectivas e a melhor relação qualidade/preço do mercado, então o sistema X é o mais equilibrado para mim.

E, mais importante do que tudo, não há nada no sistema full frame que me deixe com saudades, nem nada no sistema APS-C que me impeça de fazer a fotografia que quero fazer. Afinal, tudo isto se resume a um tamanho e, que eu saiba, ainda não é pelo tamanho dos sensores que se julgam quer os artistas, quer as suas obras de arte.

2 Comentários

  •    Responder

    Artigo interessante que mostra a evolução natural: primieiro duvida-se, depois resiste-se e por fim adopta-se e reconhecem-se as melhorias. Recentemente passei por essa dúvida precisamente, quando senti alguns limites no equipamento que estava a usar face ao que queria fazer. Acabei por optar por outra full frame, mais recente, que tinha melhorias não só em termos de dimensão da imagem, mas principalmente em termos de ruido nos ISOs mais elevados. O que me fez optar novamente por uma full frame? Na altura apenas considerava manter a marca (Nikon) e as opções existentes Z6 e Z7 a experiência com o visor ótico ficou àquem do que eu desejaria. Em adição tinham uma péssima opção de grip.

    Mas sim, revejo-me em muitos dos pontos que tão bem descreves, principalmente o facto de quando viajo a full frame fica em casa, tendo uma compacta avançada como companhia. Provavelmente tendo um sistema mirrorless já não seria assim.

    Em todo o caso, contigo, tal como todos os grandes fotógrafos, o equipamento é irrelevante. As imagens que captas são sempre fantásticas, sejam elas numa full frame, numa mirrorless ou num telemóvel.

    Obrigado pela partilha.

    Apenas uma nota para contextualizar, não sou um early adopter tecnológico por natureza. A minha máquina fotográfica favorita continua a ser uma médio formato de filme.

  •    Responder

    100% de acordo meu caro. Obrigado eu pelo teu comentário.

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