Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

"Liquid". Lisboa, Abril 2016

Os Ecos da Fotografia


A fotografia oferece-nos a maravilhosa capacidade de condensar o tempo numa imagem. Através dela, temos o poder de materializar um momento, de dar corpo a uma experiência de vida mais ou menos intensa. A fotografia faz prova da nossa existência, possibilita-nos coleccionar memórias criadas ou simplesmente passadas. Como disse um dia Dorothea Lange, “a fotografia retira instantes à linha do tempo, altera a vida ao mantê-la quieta”.

Hoje em dia, milhões de pessoas no mundo inteiro coleccionam estes instantes fazendo, por algumas fracções de segundo, parar o tempo das suas vidas. Segundo a Gizmodo, o número de fotografias carregadas diariamente na mais famosa das redes sociais do planeta ultrapassa os 300 milhões. Não há dúvida, a fotografia é já parte integrante da vida de cada um de nós, de forma mais ou menos presente. Também não há dúvidas que muitos de nós a usa tal como de um bloco de notas, um gravador de som ou um qualquer outro instrumento para constituir memória se tratasse.

Para os que abraçam a fotografia com maior paixão, fazendo dela o espaço privilegiado de contacto com o seu eu mais criativo, as motivações para coleccionar momentos são vários e à pergunta “porque fotografas?” são muitas as respostas que podem ser dadas. Este tema dá matéria para um extenso artigo que fica para depois. Hoje gostava de conversar convosco sobre esse coleccionar de memórias e sobre a escolha que activa ou passivamente fazemos dos alvos desses registos.

O que nos move para escolher este momento e não outro, o que nos incita a caminhar para registar este lugar e não outro qualquer?

Uma das dúvidas que ultimamente mais me tem assaltado o pensamento diz respeito àquilo que a maior parte das pessoas escolhe para fotografar. Em particular, o que leva dezenas/centenas/milhares de fotógrafos a escolher o mesmo lugar, à mesma hora do dia, muitas vezes para fazer o mesmo enquadramento e vir para casa com a “mesma” fotografia? O que levará estes fotógrafos a fazer centenas de quilómetros, a gastar tempo e dinheiro para poder fazer uma fotografia igual à de tantos outros?

Como é óbvio, o meu propósito neste artigo não é criticar este tipo de pessoas. Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu compelido em fazer tele-transporte para um daqueles destinos de “sonho” para fazer a fotografia que acabou de ver num site ou numa revista. O que eu pretendo é, genuinamente, perceber o porquê?

Na minha opinião, este facto tem muito a ver com o coleccionismo. Toda a gente (ou quase toda a gente) colecciona algo. Os homens então, mais do que as mulheres, são ávidos coleccionadores, chegando mesmo a coleccionar várias coisas ao mesmo tempo e ao longo da vida. Os fotógrafos, esses coleccionam gostos nas suas páginas de “photography” no Facebook. Os concursos de fotografia coleccionam imagens repetidas como se de cromos se tratassem, enquanto as revistas do meio juntam leitores para as suas capas de céus vermelhos e corpos sensuais. Os praticantes mais populares coleccionam títulos dos melhores fotógrafos do mundo, eleitos não se sabe bem por quem ou porquê.

Nos séculos XVIII e XIX, os aristocratas começaram a percorrer o mundo à procura dos mais diversos artefactos: de fósseis a conchas, de livros a obras de arte, de objectos culturais a relíquias mais ou menos valiosas. Tudo em nome do avanço civilizacional, do conhecimento e da cultura. Mas também do poder, do desafio e da recompensa pessoal. A estes coleccionadores devemos a criação dos museus e de um imaginário a la Indiana Jones que a todos nos apaixona. Senhoras incluídas, claro está!

Da Grand Tour do séc. XVIII ao turismo de massas do nosso século vai certamente um mar de evolução tecnológica. Mas há um pormenor que pouco terá mudado: a apetência pelo coleccionismo de lugares e de provas materiais do “eu estive lá”. Hoje em dia, as pessoas fazem listas de países visitados, exibem os ícones dos lugares onde estiveram na porta do frigorífico, mas, acima de tudo, povoam os álbuns da sua existência com fotografias que comprovam as suas facetas.

Se transportamos esta realidade para a fotografia, facilmente se consegue perceber o sucesso que têm as actividades ligadas à fotografia de viagem, o porquê do aparecimento de profissões onde se ganha dinheiro apenas a posar para a fotografia e porque é que existem lugares que perderam tudo o que tinham de genuíno simplesmente porque há dezenas de grupos de fotógrafos sedentos para colocar no seu mapa aquela experiência que, na maior parte das vezes, nem é a sua.

Na fotografia de natureza, aquela que mais me apaixona, não há pessoas a quem pagar para ser fotografadas. Isto não quer dizer que não seja preciso despender dinheiro para aceder à “tal fotografia”, nomeadamente no que diz respeito à fotografia de vida selvagem, mas penso que a realidade não é tão “chocante” (pelo menos, para mim) como na fotografia de viagem. Mas posso estar enganado…

Voltando ao tema central desta conversa: o que leva, um fotógrafo mais ou menos experimentado, a querer fazer uma fotografia igual a milhares de outras, num determinado local, a uma determinada hora, com um determinado enquadramento? Já nem falo em partilhá-la depois com os demais ou colocá-la no seu portefólio. Estou só a falar do acto de “criação”.

Se procurarmos respostas na psicologia, várias serão as motivações para este desejo: prazer, competição, fantasia, sentido de comunidade, prestígio, ambição, o alcançar da imortalidade. Alguns dos poucos estudiosos do tema referem também a vontade de ser único, embora, neste caso, tenha as minhas dúvidas que o consigam.

O facto de se ter registado em fotografia este ou aquele assunto mais popular faz também com que o fotógrafo passe a fazer parte do grupo selecto de pessoas que conquistaram esse feito, tal como existe o grupo de alpinistas que escalaram o Evereste, ou os que viram a versão estendida dos três filmes da saga “O Senhor dos Anéis” de seguida e sem ir à casa de banho fazer xixi. Através do coleccionismo destas fotografias, os fotógrafos podem satisfazer a sua necessidade de auto-estima, ao mesmo tempo que angariam a admiração e reconhecimento dos demais fotógrafos e amigos.

Às pessoas a quem tenho feito esta pergunta, a resposta invariavelmente gira em torno do “eu quero mostrar que também sou capaz” ou “as outras não são minhas”, passando também pelo incipiente “porque me apetece”. A verdade é que a maior parte de nós nunca pensou muito sobre isto e age de forma primária e instintiva num tema que é racional e cultural. A experiência que constitui o acto de fotografar ultrapassa muitas vezes – no que diz respeito à fruição que daí resulta – qualquer produto final da mesma e é esse também o escudo que muitos fotógrafos invocam na altura em que são confrontados com esta realidade. “Eu gosto é de fotografar”, concluem depois de muita conversa.

A forte vontade que temos de ver as coisas com os nossos olhos, de experimentar as coisas por nós próprios e de podermos enriquecer a nossa vida com mais uma prova é essencial ao ser humano e isso reflecte-se na fotografia que fazemos. Em especial, quando esta representa apenas a materialização do conjunto de instantes que constituem o eco da nossa existência.

3 Comentários

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    miguel Capitão Junho 20, 2016 at 8:27 pm

    o que nos leva a ser o eco e não a voz? A necessidade de aprovação, e hoje em dia está à distancia de um click ou de um download, são poucos os que procuram ser reconhecidos pela diferença, querem ser reconhecidos e isso chega lhes e as redes sociais viram potenciar isso mesmo, claro está e quero muito acreditar nisto a sociedade acaberá por saber separar o trigo do joio. O facto de se fotografar algo que já alguém o fez, poderá de uma certa forma funcionar como uma questão didática, ou seja tentar reproduzir algo para sabermos como se faz para podermos aplicar essas técnicas em situações semelhantes, leia se, condições de luz, velocidades etc etc, claro que a partilha desse resultado nos diferentes fóruns, enfim cabe a cada um, ou seja há fotografias que podemos mostrar a um grupo mais familiar e se calhar são um conjunto de fotos mais “popular” digamos assim e fará sentido faze lo, e há fotos que fará mais sentido apresentar a um forum com outro tipo de conhecimento até para aferir mos da sua opinião mais conhecedora e evoluir, caso contrário não sairemos da mediania e mesmo assim muitos ficarão por lá porque além do trabalho é preciso também alguma dose de talento, junta se a isto também os valores de cada um, sim meus caros porque além do eco e neste mundo das imagens há ainda aqueles que usurpam o trabalho de outros recolhendo disso alguma especie de glorificação embora seja curta, pois não os podemos enganar para sempre. Como tudo na vida, há quem procure fazer algo que faça a diferença seja no que for e há os outros…

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    Susana Pereira Junho 21, 2016 at 3:05 pm

    Sem retirar o foco do teu artigo parece-me interessante perceber porque é que o reconhecimento, a auto-estima, e a imortalidade são os temas mais comuns ao ser humano e sobretudo, e como referes no artigo é porque é que “(..)a maior parte de nós nunca pensou muito sobre isto e age de forma primária e instintiva (…)” e eu acrescentaria ” na sua vida” porque a fotografia como qualquer outra arte, hobbie e/ou actividade puramente egóica, será, certamente, apenas uma infíma parte do todo, mas como parte, reflete o todo.

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    Maria Duarte Ferreira Junho 25, 2016 at 3:40 pm

    Os motivos que levam tantos fotógrafos a escolher o mesmo local e a mesma hora para fotografar já foram aqui amplamente referidos. Acrescentaria apenas que esse tipo de comportamento revela um certo comodismo, falta de confiança e de originalidade. Se uma determinada foto do Monte Evereste tem sucesso, quem lá for e fizer igual, considera-se um bom fotógrafo e é sucesso garantido. Não digo que não… mas era muito mais interessante ir lá e fazer diferente. Ou ser pioneiro e fotografar locais menos conhecidos. Isso exige sair da zona de conforto, estudar, ser criativo e não recear as críticas, o que, convenhamos, já não é para todos.

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