Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Escolher Filtro Polarizador


Um dos filtros essenciais no kit de qualquer fotógrafo de natureza é o polarizador. Por ser um dos poucos cujo efeito é impossível de reproduzir em tempo de edição, sempre considerei fundamental a sua aquisição e desde que comecei a fotografar sempre existiu um na minha mochila.

Ao segregar a luz polarizada que incide perpendicularmente ao eixo do filtro, este acessório permite-nos três tipos de utilização fundamentais:

  1. Escurecer o céu ao eliminar os reflexos originados pelas pequenas gotas de água que se encontram no astro celeste, permitindo ao mesmo tempo aumentar o contraste em céus com nuvens;
  2. Remover reflexos de superfícies espelhadas não metálicas, tais como a água ou o vidro;
  3. Tornar as cores mais saturadas, em especial a vegetação, ao eliminar os reflexos causados pela água que se encontra sobre esses elementos.

Como efeito secundário, o polarizador tem ainda a característica de aumentar o tempo de exposição em sensivelmente 1,5 stops (dependendo do grau de polarização, como veremos nos testes que efectuei).

Utilização do filtro

No que diz respeito ao uso do filtro, há que ter em conta um aspecto importante: o filtro roda! Isto permite-nos obter vários níveis de polarização, ajustando assim o efeito pretendido. Ao rodar o filtro na mesma direcção o seu efeito vai aumentando de intensidade até que desaparece por completo. Como é possível rodá-lo “sem fim”, este círculo repete-se com facilidade, tornando a sua utilização intuitiva.

O facto de se poder ajustar o grau de polarização a aplicar deve ser tido em conta quando estamos a fotografar céus limpos com distâncias focais inferiores a 24mm. Como o ângulo de visão conseguido por essas distâncias focais é grande o nível de polarização conseguido no céu é díspar, fazendo com que existam zonas mais escuras e outras mais claras. Isto deve ser evitado, bastando para isso rodar o filtro até que o céu pareça uniforme.

O nível de intensidade do efeito que o filtro produz varia também consoante o ângulo que este está perante a fonte de luz (o sol). O efeito máximo é produzido a 90º, enquanto que a 180º, ou seja, com o sol atrás de si, o efeito é quase inexistente.

Para finalizar esta introdução ao uso do polarizador importa ainda dizer que este filtro não é para estar sempre na frente da objectiva. O polarizador apenas deve ser usado quando dele necessitamos, seja para eliminar reflexos, seja para saturar as cores ou para dar contraste ao céu ou a algum elemento que esteja a ser fotografado contra o céu. Antes do nascer-do-sol e após o pôr-do-sol, o único efeito que o polarizador produz é o aumento do tempo de exposição. Se isso não for desejado, o polarizador deve ser removido da frente da objectiva. O meu conselho é que o remova sempre que não produz efeito.

O porquê deste teste

Como vos disse, desde sempre que utilizo um polarizador. O primeiro que comprei antes do ano 2000 era um Heliopan. Lembro-me que foi caro, como todos os polarizadores de qualidade são. Esse já não existe pois, como muitos, caiu ao chão e partiu-se. Quando comecei a usar filtros em gradiente, com o suporte da Lee, passei a utilizar filtros de 105mm, também da Heliopan. Cada filtro desses custa à volta de 200 euros e após ter partido dois deixei de os usar em conjunto com os filtros graduados, pois o investimento estava a tornar-se irracional. Neste momento, utilizo um filtro de 77mm da Sigma que me custou à volta dos 100 euros e que me garante a qualidade desejada, mas que não me permite utilizar um suporte da filtros de densidade neutra.

Há umas semanas descobri um novo tipo de suporte para filtros graduados que introduz uma inovação interessante. Em vez do filtro ser colocado à frente do suporte, num anel de 105mm como na Lee e na Formatt/Hitech, estes novos suportes permitem que o polarizador seja coloca logo no anel adaptador que se encaixa à frente da objectiva, permitindo a utilização de filtros de diâmetros menores. É este o caso dos suportes da NiSi que alguns amigos utilizam e que me fez despertar para esta nova realidade. Estes suportes permitem a rotação do filtro polarizador mesmo com filtros graduados à frente através de uma pequena roda no suporte que permite ajustar o nível de polarização. Simples e inteligente.

Quando tentei descobrir se o filtro polarizador da NiSi tinha qualidade para me permitir mudar de sistema não encontrei grande informação sobre o mesmo. O único artigo que encontrei na internet a falar sobre ele não era muito abonatório do mesmo, tendo descoberto que é inclusive impossível usar o filtro sem ter o suporte da NiSi. Foi então que me lembrei de colocar um post na minha página de facebook a perguntar opiniões sobre o mesmo. Não tendo recebido grandes respostas lembrei-me de preparar um teste aos vários polarizadores disponíveis no mercado, um de cada sistema de porta-filtros que me podia interessar. Da NiSi e da Formatt/Hitech (que agora também tem um suporte deste novo tipo) não recebi qualquer resposta. Parece que o facto de passarem por mim mais de 100 pessoas nas acções de formação que lidero na Primeira Luz não foi suficiente para que essas marcas me dessem uma resposta ao meu pedido… Nesse processo, houve no entanto, uma nova marca que se prontificou em enviar um polarizador para teste. A Kase, um fabricante Chinês que está a entrar no mercado com alguns produtos inovadores (como é o caso dos filtros de densidade neutra em vidro da série Wolverine, praticamente inquebráveis e à prova de riscos), tem também um sistema de porta-filtros com a característica que procurava, ou seja, a possibilidade de utilização de um filtro de menores dimensões que se coloca no anel adaptador que se coloca directamente na parte frontal da objectiva e que usa a tal roda para ajustar o polarizador. Para quem quer perceber como tudo isto funciona aconselho este vídeo do fotógrafo português Francisco Gonçalves.

Desta forma, tenho então 3 filtros para testar: o meu actual Sigma de 77mm, um Lee de 105mm e o novo Kase de 82mm.

Como fiz o teste

Para fazer este teste, resolvi fotografar a mesma cena com os 3 filtros e analisar os resultados de forma empírica. A minha fotografia não tem nada de científico e, como tal, não fazia grande sentido estar a testá-los do ponto de vista científico. Até porque não tenho os conhecimentos e as ferramentas necessárias para tal.

Fotografei no Parque do Bonito uma zona com água, com um céu com nuvens e num ângulo de 90º para o sol. Foi usado tripé, a objectiva 24-105L da Canon e a 5D Mark III. As definições na câmara foram exactamente as mesmas em cada fotografia e resolvi apresentar sempre um conjunto de exposições coerente: uma inicial sem o filtro, seguida de uma com o filtro colocado no efeito de polarização mínimo, outra no máximo e outra no máximo mas ajustando a exposição para conseguir um histograma semelhante ao da fotografia inicial. Com isto conseguem-se perceber vários parâmetros, desde a quantidade de luz que o filtro corta, até à sua neutralidade, até à resolução.

Sigma 77mm

Sigma
Sem filtro | Com filtro | Com filtro max. polarização | Max. polarização / exp. correcta

Dados Técnicos:

  1. Sem filtro: 1/100, f/11, ISO100 [Download]
  2. Com filtro: 1/40, f/11, ISO100 [Download]
  3. Com filtro max. polarização: 1/40, f/11, ISO100 [Download]
  4. Max. polarização / exp. correcta: 1/25, f/11, ISO100 [Download]

Lee 105mm

Lee
Sem filtro | Com filtro | Com filtro max. polarização | Max. polarização / exp. correcta

Dados Técnicos:

  1. Sem filtro: 1/80, f/11, ISO100 [Download]
  2. Com filtro: 1/40, f/11, ISO100 [Download]
  3. Com filtro max. polarização: 1/40, f/11, ISO100 [Download]
  4. Max. polarização / exp. correcta: 1/25, f/11, ISO100 [Download]

Kase 82mm

Kase
Sem filtro | Com filtro | Com filtro max. polarização | Max. polarização / exp. correcta

Dados Técnicos:

  1. Sem filtro: 1/100, f/11, ISO100 [Download]
  2. Com filtro: 1/50, f/11, ISO100 [Download]
  3. Com filtro max. polarização: 1/50, f/11, ISO100 [Download]
  4. Max. polarização / exp. correcta: 1/25, f/11, ISO100 [Download]

Principais conclusões

Marca Diâmetro Preço Net Corte de Luz Resolução
Sigma 77mm 100€ 1,3 stop / 2 stops ****
Lee 105mm 205€ 1 stop / 1,6 stops ****
Kase 82mm 120€ 1 stop / 2 stops *****

O filtro da Sigma, sendo o mais grosso de todos, é o que corta mais luz quando colocado à frente da objectiva, mesmo sem qualquer grau de polarização (1,3 stops). Em termos de corte de luz, quando rodados para atingir a máxima polarização, é interessante como o mais fino do lote, o filtro da Kase, consegue o mesmo corte de luz (2 stops) que o mais denso de todos, o Sigma. O filtro da Lee é o que menos luz corta (1,6 stops) quando rodado para atingir a máxima polarização. Em termos de resolução, todos são excelentes, conseguindo um nível de detalhe imaculado, sendo que o filtro da Kase consegue um desempenho ligeiramente superior. O facto de ser construído utilizando vidro Schott B270 tem certamente influência no resultado final. Em termos de neutralidade, todos se comportam da mesma forma, havendo poucas diferenças nas tonalidades dos ficheiros conseguidos com as mesmas definições na câmara.

Conclusões

O principal objectivo deste teste era verificar se a opção de utilizar um novo tipo de suporte onde a possibilidade de usar simultaneamente filtros ND e polarizador de dimensões inferiores a 105mm fosse uma opção viável. Para que isso fosse recomendado precisava de avaliar a verdadeira qualidade do polarizador oferecido por estas novas marcas. Tenho a confessar que fiquei agradavelmente surpreendido pela qualidade do polarizador da Kase, não ficando atrás dos filtros que possuía e que se tornaram referência para mim ao longo destes anos. Tendo também usado filtros da B+W e Hoya Pro que são comparáveis com o meu Sigma, o Kase mostrou-se uma opção de qualidade, sendo que em resolução ultrapassa até estas opções. Em termos de preço, não há dúvidas da escolha mais acertada. Pelo preço do polarizador da Lee consigo comprar dois filtros da Kase…

O suporte da Kase para utilização de filtros ND e graduados funciona muito bem. A sua rodinha permite ajustar o polarizador de forma perfeita e o seu sistema de segurança impede que os filtros saiam mesmo quando empurrados ou puxados, algo que já não posso dizer do sistema da Lee que já saltou várias vezes no terreno, uma das razões pela qual os anteriores filtros se partiram.

A única coisa que não gostei tanto no sistema da Kase foi o anel adaptador que liga a objectiva ao Polarizador e que depois serve para encaixar no suporte. Como este anel roda e o polarizador também roda, achei que tirar o polarizador no terreno se torna uma tarefa mais complicada e demorada que o normal. A solução passa por ter dois anéis adaptadores, um com o polarizador sempre colocado (o que me permite usar o filtro nas minhas objectivas de diâmetro 77mm) e outro sem o polarizador quando quero usar o porta-filtros sem qualquer polarizador. Isto, porque, como referi, o polarizador não é para ser sempre utilizado. Este anel adaptador extra tem o preço de 25 euros.

Em resumo, vou começar a usar o sistema da Kase, com o seu polarizador e o seu porta-filtros em detrimento do sistema da Lee que me obriga a usar um filtro de 105mm. A poupança de dinheiro é substancial. O porta-filtros da Kase (K100 II) com o anel adaptador 77/82mm custa 100 euros. Com o polarizador, o investimento é de cerca de 245 euros, já com o anel extra para poder usar o sistema sem polarizador. Este preço é o que pago apenas pelo polarizador da Lee de 105mm quando comprado em Portugal. O mesmo kit da Lee, com polarizador, anéis adaptadores e porta-filtros ascende a perto de 400 euros…

Espero que este teste seja também útil para vós na hora de adquirir um novo polarizador, em especial se, como eu, gosta de os usar em conjunto com os filtros de densidade neutra.

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