Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Rosa Albardeira. 1/2000@f/2.8, ISO200 (85mm + Ext 68mm)

Supertubos!


A primavera chegou finalmente! E com ela, os campos floridos. Um pouco por todo o país, as terras enchem-se de cores e de formas tão variadas como só a natureza é capaz de oferecer. Na “minha” serra, as orquídeas estão no seu esplendor e este fim-de-semana grande foi o ideal para descobrir novas espécies para a colecção. Não tivesse sido o vento que se fez sentir na Costa de Alvados, a obrigar a velocidades rápidas e ISOs elevados, tudo teria sido perfeito para alimentar a minha nova paixão: fotografar flora.

Em primeiro lugar, tenho de ser sincero convosco: sempre achei um bocado piroso andar a fotografar florzinhas. Fotógrafo a sério fotografa árvores de grande porte, pensava eu. Preconceitos e brincadeiras à parte, também devo revelar que não tinha (e continuo a não ter) objectiva para as fotografar convenientemente. A macro que trazia na mochila, desde que comecei a fotografar há 20 anos, raramente de lá saiu e, por isso, foi vendida há umas 3 ou 4 temporadas. Mas a vida acaba sempre por nos dar a volta e só depois de a vender é percebi que precisava dela. Onde é que eu já ouvi isto…

A zona da Serra de Aire, onde estou a desenvolver um portfolio há já alguns anos, é um local verdadeiramente único no que diz respeito à flora. Para além de albergar espécies emblemáticas, como a rosa albardeira que vou usar para contar a história deste artigo, é uma zona de eleição para a contemplação de orquídeas. Das mais de cinquenta espécies existentes em Portugal, 27 foram já avistadas na zona do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Este fim-de-semana encontrei e fotografei mais uma mão cheia delas, entre Orchis, Ophrys e Anacamptis. As orquídeas são flores fascinantes, com um comportamento reprodutivo verdadeiramente apaixonante, mas isso fica para uma próxima conversa.

 Satirião-menor (Anacamptis pyramidalis)1/400@f/4, ISO 200

Satirião-menor (Anacamptis pyramidalis) 1/400@f/4, ISO 200 (85mm + Ext 12mm)

Hoje estou aqui para vos falar de um acessório fotográfico que descobri também há pouco por causa das flores. Costuma-se dizer que quem não tem cão, caça com gato e, no meu caso, é mais quem não tem objectiva macro fotografa com tubos de extensão.

Às vezes, os meus pares ficam admirados com o meu desconhecimento sobre equipamento fotográfico. É verdade, eu não sou muito de andar a investigar e comprar equipamento; eu sou mais de andar no terreno a fotografar. Mas quando preciso dele, também exploro as diferentes opções. E foi à procura de uma nova objectiva macro que descobri estes super-tubos!

O que são tubos de extensão?

Basicamente, são pedaços de metal oco que, ao serem colocados entre o corpo da máquina e a objectiva, fazem estender a distância entre esta e o sensor. Permitem também que se consiga focar mais perto e, por conseguinte, aumentar a capacidade de ampliação da objectiva. Ao contrário de muitos dos acessórios que se juntam às objectivas, os tubos de extensão não têm qualquer componente óptica, o que os torna em peças relativamente baratas. São um complemento em conta para tornar qualquer objectiva numa macro (com as limitações que vou explicar a seguir) em alternativa à compra mais cara de uma objectiva dedicada.

Um tubo de extensão aumenta a capacidade de ampliação da objectiva na medida exacta do seu comprimento dividido pela distância focal que estamos a usar. Por exemplo, se usarmos um tubo de extensão de 20mm numa objectiva de 50mm que tem nativa uma ampliação de 0,15x teremos: 0,15x + 0,4x (20/50mm) = 0,55x

Se percebermos um pouco de matemática, rapidamente podemos verificar que quanto maior for a distância focal usada menor será a capacidade de ampliação conseguida. Por essa razão, estes tubos não muito usados em tele-objectivas acima de 100mm, sendo populares no intervalo 50-85mm.

No exemplo que preparei para este artigo, usei a lente EF 85mm f/1.8 da Canon. Esta lente tem uma distância mínima de foco de 85cm e uma capacidade de ampliação de 0,13x. Ou seja, está muito longe do grau de ampliação de uma lente macro dedicada.

Ao adicionar os vários tubos de extensão do meu conjunto da Kenko (12, 20 e 36mm) podemos obter os seguintes valores:

Tubo de Extensão Nova Ampliação Nova Distância Mínima de Focagem
12mm 0,27x 51cm
20mm 0,37x 43cm
36mm 0,55x 37cm
12+20mm 0,51x 38cm
12+20+36mm 0,93x 34cm

Como podemos ver pelas imagens abaixo de uma rosa albardeira em pleno Algar do Ladoeiro, à medida que vamos adicionando comprimento nos tubos de extensão o grau de ampliação vai sendo cada vez maior. Se juntarmos os três tubos chegamos quase ao valor de 1x, permitindo-nos resultados verdadeiramente únicos.

Vemos também que a distância mínima de focagem vai diminuindo consideravelmente (notem que a mochila e a rosa estão imóveis, apenas a câmara se move na sua direcção).

Em termos de vantagens, logo à partida, temos o facto de poder aceder ao maravilhoso mundo da fotografia macro sem investir numa objectiva dedicada, fazendo que qualquer objectiva na nossa mochila possa virtualmente passar a desempenhar esse papel. Como não coloca qualquer elemento óptico à frente da objectiva, minimiza uma potencial degradação de qualidade no resultado final.

Na minha opinião, é uma solução barata e bastante flexível para poder experimentar este mundo. Depois, se virmos que é um universo que queremos explorar com mais dedicação, podemos investir numa objectiva macro de qualidade que irá ser sempre mais dispendiosa em termos de orçamento, mas que garante uma qualidade superior.

Eu escolhi comprar, em segunda mão, o conjunto da Kenko, uma solução alternativa aos tubos existentes da Canon (e outras marcas). Como não há elementos ópticos a considerar, só temos de nos preocupar com a qualidade de construção e a presença dos contactos electrónicos. Na teoria, podem comprar qualquer marca, mas como sempre, gosto de recomendar soluções já testadas pelo mercado. Por essa razão, investiguem antes de comprar.

640ISO400F28

Campainha-dos-montes (Narcissus bulbocodium) 1/500@f/4, ISO 400 (85mm + Ext 68mm)

Da minha experiência, há algumas notas a ter em conta:

  • Usar tubos de extensão com objectivas zoom é algo difícil, pois qualquer alteração na distância focal coloca a imagem fora de foco. Por essa razão, considero que é boa prática usar-se os tubos em objectivas fixas (prime);
  • Usar tubos de extensão em distâncias focais superiores a 100mm faz pouco sentido, pois o nível de ampliação que se ganha é diminuto;
  • Como a objectiva passa a focar muito mais perto daquilo para a qual foi construída, a qualidade de imagem não é tão boa como numa macro dedicada, em especial quando o grau de ampliação é elevado. Ainda assim, é possível fazer imagens bastante interessantes;
  • É preciso andar sempre a montar e a desmontar a objectiva para alterar os tubos, o que pode aumentar o nível de sujidade no sensor;
  • Ainda que os tubos que tenho possuam contactos electrónicos para deixar passar os comandos para a objectiva (auto-foco, medição, etc), tenho sempre focado manualmente. Penso que é mais fácil. Também tenho usado sempre a máquina na mão em vez do tripé. Não sei porquê, mas dá-me mais jeito… Em especial quando uso os três tubos e a profundidade de campo se torna quase nula.
Soagem (Echium plantagineum) 1/500@f/4, ISO 400 (85mm + 32mm)

Soagem (Echium plantagineum) 1/500@f/4, ISO 400 (85mm + 32mm)

Espero que tenha aberto o apetite para desfrutarem desta primavera sobre um ponto de vista mais próximo da terra, mais íntimo e muito mais colorido. Preparem-se para um mundo de descobertas e para passarem a olhar cada flor com um novo olhar. Tenho a confessar que é uma prática muito viciante!

Ah, e não se esqueçam das joelheiras. Os vossos joelhos vão agradecer! Boas fotografias.

3 Comentários

  •    Responder

    A Flora não é só boa para barrar no pão 😉
    Confesso que é viciante este mundo da Macro ou mundo diminuto do pormenor. Existe muitas maneiras de registar não só as Florzinhas mas também outros pormenores de menor escala, ou seja um mundo infindável de possibilidades!
    A opção que aqui referes dos Tubos de extensão é uma excelente alternativa para quem não quer gastar muito dinheiro, embora ache que uma lente própria para Macro é sempre o mais certo.
    Bom artigo Parabéns.
    Luis Jesus

  •    Responder
    Maria Manuela Azevedo Abril 26, 2016 at 7:20 pm

    Muito bom, já algum tempo que me apaixonei por esta parte da natureza, a flora, mas com muito amadorismo lá vou fazendo umas macros, como Deus me vai ajudando… Obrigada pela partilha. Manuela Azevedo

  •    Responder
    João Paulo Barros Abril 26, 2016 at 9:32 pm

    Gostei do artigo. Provavelmente já conheces, mas aqui fica: http://www.clubeorquidofilosportugal.pt/index.php/orquideas

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