Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Zona de Conforto


A relação mais íntima que alguma vez teremos na nossa vida não é com a nossa esposa, marido ou namorado. Não é com os nossos filhos, nem com os nossos pais. Na verdade, não é com nenhuma pessoa que possamos observar com os nossos olhos, a não ser com a ajuda de um espelho… A relação mais íntima que alguma vez teremos é connosco próprios e com os nossos pensamentos.

Esta relação, para além de nos definir, tem uma influencia decisiva sobre todas as outras, interpessoais ou não, nelas incluídas as actividades que decidimos abraçar. Podemos optar por tratar esses pensamentos de forma serena, contínua, sem nunca os perturbar demasiado. Ou podemos, pelo contrário, inquietá-los. Chama-se a isso pisar fora da “zona de conforto”.

Este fim-de-semana, entreguei os meus pensamentos a duas actividades que me completam: a fotografia e o ensino. O objectivo? Tirar uma mão cheia de fotógrafos da sua “zona de conforto”.

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Luís Artur

A fotografia, encarada com uma forma de arte, pode ser vista como uma representação visual dos nossos pensamentos, uma expressão viva daquilo que sentimos, a forma de respondermos aquilo que colocamos diante de nós. Se diante de nós estiver a natureza, na sua complexa multitude, essa expressão pode tornar-se num labirinto gigante, tal é a quantidade de formas e oportunidades que temos para a representar.

Como com os nossos pensamentos, perante a imensidão de retratos que podemos fazer da natureza, podemos optar por nos manter na “zona de conforto”, fotografando da forma que nos é familiar, seja na nossa produção, seja na dos outros. Talvez por isso, quando anunciei que neste workshop não haveria lugar a objectivas grande angular, a receptividade foi menor e o cumprimento desse requisito teve de ser assegurado no terreno. Como é possível pensar-se em levar fotógrafos à Serra da Estrela e impedi-los de usar uma grande angular? Como é que aqueles cantâros vão caber na fotografia? “A mim, não me apanhas num evento desses”, terão certamente pensado muitos dos que, desde o início, demonstraram prontidão em participar.

Mas houve uma mão cheia deles que decidiram confiar. Uns porque já me tinham ouvido a falar desta abordagem mais artística à fotografia de natureza, outros porque confiaram sem ressalvas em quem co-organizava o evento – o SerraVale – House & Nature. Ainda houve outros que resolveram tornar o desconforto em aliado, um desconforto várias vezes informado quando lhes dizia, em modo de antecâmara, que o oferecido era que abraçassem a inquietude para se poderem libertar e avançar.

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Nuno Carvalho Rodrigues

E foi numa manhã de sábado, solarengo, dos poucos que vimos este ano, que começou o meu primeiro workshop ministrado a título pessoal. Resolvi baptizá-lo de “Arte & Natureza”.

O grupo, que decidi manter abaixo da meia-dúzia para ter a certeza que podia fotografar ao lado de cada um deles, de forma individual, ouviu-me com atenção nas primeiras quatro horas do workshop. Juntos descobrimos um significado para o termo “fotografia íntima”, cunhado por Eliot Porter no final dos anos 70 do século passado, e porque é tão importante mostrarmos a quem olha as nossas fotografias que por detrás da câmara há alguém que pensa, sente e faz escolhas influenciadas pelo poder dos seus sentimentos. Vimos muitas fotografias, analisamos cada uma delas em conjunto, desvendamos novas técnicas e novas abordagens. Aprendemos a ver, descobrimos que todos sabemos o que está bem e o que está menos bem numa fotografia e, acima de tudo, ficamos com vontade de percorrer um caminho diferente, mais rico e mais íntimo. Filosofamos em conjunto e juntamos emoção à razão. No final, estávamos prontos para olhar a natureza com outro olhar.

Tempo de arrumar as coisas e fazer uma pequena viagem até um dos locais mais bonitos de Portugal, berço do rio Zêzere, um anfiteatro de sonho envolvido pelos granitos que tocam os pontos mais altos do continente português. Vinho, queijo da serra e outras iguarias foram servidas pelo Miguel do SerraVale, mostrando que nada foi ao entregue ao acaso naquele picnic no coração do Covão d’Ametade. No final, até houve direito a cafezinho e bolinhos para os amantes da cafeína.

Aconchegado o estômago, foi tempo de partir para a sessão prática, onde pusemos no terreno os vários conceitos apresentados na sessão da manhã. Foi altura de experimentar muito, de libertar a criatividade, de dar aso à imaginação. Foi tempo de olhar para baixo, para cima, de nos deitarmos no chão á altura dos jacintos do prado, do rosmaninho e da urze. Foi hora de chegar perto, pois não há outra forma de ser íntimo.

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Carla Carvalho

Quando olhei para o relógio pela primeira vez tinham passado duas horas e meia. O tempo tinha voado literalmente. A minha câmara não tinha feito um único disparo, mas eu já tinha feito várias fotografias, imagens partilhadas pelos sentimentos de quem estava a aprender e de quem estava a ensinar. E haverá outra forma de partilhar o que sabemos?

17h30 e tempo de procurar outro lugar. Não que este não nos inspirasse, ou que fosse realmente preciso, mas havia que cumprir o programa que nele tinha marcado dois locais a percorrer naquele fim-de-semana. Sim, apenas dois locais… e sem poder usar a grande-angular. Um autêntico atentado ao workshop de paisagem natural. 😉

Chegamos ao Vale do Rossim e a luz do fim da tarde espalhava o seu charme por cima dos prados abertos e sobre as águas calmas da barragem. Mas antes de nos perdermos com a luz resolvemos experimentar numa roda de bétulas que ali se encontrava. Depois sim, foi tempo de brincar com a filigrana das delicadas plantas que cobriam o vale, com as flores silvestres, com os reflexos na água. E com a rã que o Nuno encontrou para a Catarina. Tudo foi fotografado de perto, com a intimidade de quem abraçou a descoberta de forma intensa. A “zona de conforto”? Por esta altura, já era…

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João Godinho

Tempo para nova ousadia da minha parte e, antes que o por-do-sol resolvesse fazer das suas e puxasse algum dos participantes de volta à “triste realidade”, decidi regressar ao SerraVale onde o Miguel e a Elsa nos esperavam para o jantar. Se havia nuvens no céu? Sim, acho que sim…

O jantar, preparado com carinho pela dona da casa, estava divinal e foi o culminar perfeito para aquele dia. Tal como o foi a inesperada revelação que a Catarina nos decidiu oferecer. Mas tudo isso fica apenas para quem lá esteve. Peço desculpa, mas o seu a seu dono. Apenas referir que, uma vez mais, sair da “zona de conforto” foi o mote para todos nós naquele fim de noite.

Na manhã seguinte, o grupo junta-se de novo à porta do SerraVale. São 5 da manhã e vamos voltar ao Covão d’Ametade. O intuito é apanhar os primeiros raios de sol sobre os cântaros. E como todos se portaram bem no dia anterior, objectivas grande-angular para os que desobedeceram e as trouxeram são permitidas na primeira hora da manhã. Como se uma linha paralela se formasse neste workshop, algo que incentivei a perseguirem no futuro. Como é óbvio, o meu móbil com este evento não é trazer estas cinco pessoas para uma nova realidade; é sim dar-lhes matéria para pensar e mostrar-lhes que há um outro caminho que pode ser percorrido na sua viagem fotográfica, de forma paralela, divergente ou intermitente.

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Catarina Almeida

Retomamos o fio condutor no instante preciso em que um grosso manto de nuvens esconde a primeira luz da manhã. É tempo de voltar a observar aquelas pedras de outra forma. Da forma que contava Weston: “façam com que elas pareçam pedras, mas que sejam mais do que apenas pedras”.

No final da sessão, a tempo de voltarmos para o pequeno-almoço, senti que o propósito tinha sido cumprido. Para além disso, sabia que o desafio de registarem 3 fotografias através das 3 abordagens que lhes tinha apresentado na sessão teórica tinha sido completado, ainda que poucos deles tivessem essa noção.

A seguir ao revigorante pequeno-almoço do SerraVale foi tempo de abrir o Lightroom e de, em conjunto, analisarmos as fotografias produzidas. A edição foi também feita em conjunto: embora tivesse eu a batuta, foram eles que me guiaram naquilo que queriam ver representado nas suas fotografias. Esta sessão é sempre muito importante, pois permite materializar aquilo que se pensou ao longo de todo o fim-de-semana, permitindo dar corpo aos sentimentos que se produziram nos vários momentos da formação. No final, quando passamos o slideshow (que podem ver no topo desta página) com as fotografias obtidas, ninguém teve dúvidas: foi bom deixar por largos momentos a nossa “zona de conforto”.

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O Grupo no final da sessão de campo

No regresso a casa, depois das despedidas sentidas na sala do SerraVale, senti-me em paz com os meus sentimentos. E senti, também eu, o alargar do círculo que representa a minha “zona de conforto”. Esta nova experiência fez com que eu tivesse crescido um pouco mais. Agora, talvez volte daqui a uns meses, certamente com outras ideias ou outras escolhas. Tal como a vida, também a fotografia e o seu ensino é feita destes momentos em que temos de escapar da força intensa que gravita em torno da nossa “zona de conforto”. E é nestes momentos de sublime inquietude que conseguimos ser verdadeiramente livres. Até breve!

Muito obrigado à Elsa e ao Miguel Serra pela forma como nos receberam. Desde o momento da chegada até à hora da partida, nada poderia ter corrido melhor. Obrigado ainda ao Luís Serra por ter partilhado o seu talento connosco e por ter pedido à Catarina que pintasse com a sua voz a mais bonita das telas da noite. Como costumamos dizer na nossa terra, bem hajam!

2 Comentários

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    João Rosário Godinho Junho 6, 2016 at 10:01 pm

    Li com muita atenção e senti arrepios pela descrição que fazes em relação ao nosso Workshop de 04 e 05 de Junho de 2016. Foi realmente diferente e para mim o mais bem conseguido desde que participo na Fotonature. Além do nº de participantes ter sido restrito, logo bastante personalizado, não vou entrar pelo entusiasmo de Todos nesta nova forma de criar Fotografias de sonho. Tudo mudou na abordagem que faço hoje à Fotografia. Agradeço-te por deixares por alguns momentos eu ter-me desviado, “colocar a grande angular e realizar a Fotografia que também imaginava”. Permite-me deixar aqui um grande Abraço a Todos os Participantes incluindo as pessoas do Serravale (Elsa,Miguel e Luís)

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    Luís, mais um texto brilhante. O meu muito obrigado pelo excelente fim de semana, obrigado extensível aos restantes participantes e ao Miguel e Elsa.

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