Perspectiva
Um blogue sobre fotografia, por Luís Afonso

Imprimir em casa: dar corpo à criatividade


Eu adoro imprimir. Agrada-me o ritual da escolha do papel, de sentir a sua textura, de procurar a melhor opção para uma determinada imagem. Gosto do processo de preparação do ficheiro digital, de o escrutinar à procura daquilo que não deve ser impresso, de o preparar para produzir a melhor impressão. Adoro olhar para uma fotografia acabada de sair da bandeja da impressora, ainda com a tinta a precisar de estabilizar. Venero a sensação de tornar física uma imagem que criei. É o culminar de um processo que às vezes começa muito antes do momento da captação.

A minha relação com a impressão em casa começou em 2004, quando adquiri uma Epson R800. E quando falo em impressão, falo em impressão fotográfica, pois eu ainda sou do tempo das impressoras de agulhas da marca japonesa. Comprei a R800 porque precisava de materializar a minha fotografia, de lhe dar corpo, de a poder ver para além dos bits e bytes do ecrã do computador.

Mas esta relação nem sempre foi fácil. Os resultados nem sempre eram os esperados. Não por culpa da impressora, mas fundamentalmente por causa do processo e do impressor. Conseguir uma boa impressão em 2004 não era tarefa simples.

Adicionalmente, havia ainda a questão dos custos. A mesma questão que se continua a colocar hoje em dia. Quantos de vocês, que gostam de ter na mão as vossas fotografias, não se questionaram já vezes sem conta: compensa mesmo ter uma impressora em casa?

Ecrã táctil da Epson Surecolor P900 enquanto imprime uma das minhas fotografias.

Dar ouvidos à razão

Vamos a contas. Não vou estar aqui a fazer matemática com o custo e a capacidade dos tinteiros. Da minha experiência, essa nunca é uma ciência exacta e aquilo que um conjunto de tinteiros imprime nunca é um número exacto, pois depende, em boa verdade, das imagens que lhe são dadas a imprimir. Prefiro fazer convosco um exercício mais real e mais próximo daquilo que é o nosso dia-a-dia.

Em 2019, para mencionar o último ano “normal”, sobreviveram no meu arquivo 2411 fotografias. Dessas, fazem parte da minha coleção “Escolhas do Ano” 35 imagens. Vamos presumir que eu gostaria de imprimir essas 35 imagens no formato A3 (sim, eu gosto de imprimir em grande). Para isso vou comprar uma impressora A3+ capaz de impressões de qualidade fotográfica. Uma demorada consulta na Internet, à procura das melhores opções, dá-me os seguintes resultados:

  • Epson Expression Photo XP-970 (considerada por muitos a melhor opção para fotógrafos com um orçamento baixo): 314€
  • Canon PIXMA PRO-200 (uma boa opção de entrada de gama para fotógrafos que pretendem tintas de arquivo): 499€
  • Epson Surecolor P700 (a melhor opção em termos de qualidade de impressão em tintas pigmentadas): 770€

Qualquer uma destas impressoras vai conseguir imprimir estas 35 imagens, no formato A3, com os seus tinteiros iniciais. Mesmo que alguma delas precise de substituir alguns deles, não é expectável que sejam mais de 2 ou 3, normalmente o amarelo, ciano e algum dos pretos, dependendo das vossas imagens. Assim sendo, vamos deixar de lado os custos dos tinteiros para este exercício. Mas, algo que temos de somar, antes de dividir o preço do custo da impressora pelas 35 imagens, é o custo do papel. Vou escolher um dos meus papeis favoritos, da LIS Sistemas (uma empresa portuguesa sediada em Leiria), para fazer as impressões. Uma caixa de LS Cotton Radiant White 270g A2 com 25 folhas custa 69,15€. O valor por folha A3 é de 1,38€, excelente para a qualidade que oferece. Assim sendo, o custo de impressão de cada fotografia seria de 10,35€ na XP-970, 15,64€ na PRO-200 e 23,38€ na SC-P700. Uma impressão A3, num dos laboratórios de referência nacionais (Fineprint), utilizando tintas pigmentadas e o mesmo papel custa 12€. Como podem ver, apenas a primeira opção consegue bater, no ano inicial, o custo de impressão em laboratório, ainda que com uma qualidade inferior. Para conseguirmos uma qualidade semelhante teríamos de pagar os 23,38€ da Surecolor P700, ou seja, quase o dobro.

Não há nada como ver sair da impressora uma fotografia na qual investimos tanto na sua produção.

Como é óbvio, este não é um exercício real de custo por impressão. O que estou a fazer é apenas dividir o custo de compra da impressora pelas 35 imagens e juntar-lhe o custo do papel. Em boa verdade, o custo da câmara fotográfica raramente é contabilizado no preço de produção de cada fotografia, nem o preço das objetivas e de todos os acessórios que usamos para fazer uma determinada fotografia. Olhamos para esse custo como um investimento para podermos fotografar. Também a impressora pode e deve ser vista com um equipamento fundamental para a nossa arte e o seu custo será amortizado ao longo dos anos.

A Epson criou uma aplicação que nos permite estimar, de forma simples e rápida, as necessidades e custos mensais de tinta quando se utiliza a sua linha de impressoras profissionais de grande formato. A aplicação pode ser descarregada para android e iOS e está disponível nesta ligação.

Segundo dados da Epson, uma impressão A3 de uma fotografia (cobertura de 66%) na Surecolor P700 tem um custo de 2,66€, enquanto que na P900 esse mesmo custo desce para 1,73€ devido à maior capacidade dos seus tinteiros. Se lhe juntarmos o preço do papel acima descrito teremos um custo de aproximando por impressão de €4 e €3. Estes valores apenas refletem o preço dos consumíveis e estão estimados para uma quantidade mensal de 30 fotografias.

Já agora, permitam-me outro exercício para os que de vocês estão indecisos entre adquirir a P700 ou a P900, como eu já estive. Entre a P700 e a P900, que permite impressões até A2+, existe uma diferença de 325€ no preço de compra. Se fizermos um cálculo rápido, a impressão de 350 fotos A3 é compensada na economia de tinta pela diferença no preço dos tinteiros. Um fotógrafo que imprima 30 fotos A3 por mês já amortizaria a diferença de preço no 1º ano. É claro que nem todos imprimimos tantas imagens, mas não é absurdo fazer esse exercício para um prazo de 2 anos a uma média de 15 fotografias A3 (ou combinação equivalente de tamanhos diferentes). Ou seja, para quem imprime muito, como eu, a Surecolor P900 é sem dúvida a escolha mais acertada. Para quem imprime ocasionalmente, eu aconselharia a P700 que tem ainda a vantagem de permitir o uso de rolo sem qualquer acessório.

Se atendermos à razão, poderão haver poucos motivos para a compra de uma impressora, se tivermos demasiado fixados no custo do investimento inicial, em especial para os que de nós não imprimem com regularidade.

Mas então, o que me leva a ter em casa, para além da Epson R800 (sim, ainda funciona 16 anos depois) uma Epson R3000 e agora uma Epson SC-P900?

À distância de um click!

Uma das primeiras razões é a conveniência. Quando encontro uma imagem que tem potencialidade para ser uma grande imagem e preciso de a ver impressa, não há nada como ter a impressora e o papel à mão, sem precisar de sair de casa ou esperar por uma encomenda que pode levar vários dias. Eu sei que nos tempos que correm, especialmente quando se vive perto de um bom laboratório, esta razão pode não ter muito peso. Mas o certo é que o facto de termos uma impressora ao nosso dispor permite que imprimamos muito mais do que se tivermos de fazer algo para além de apenas clicar em “Imprimir”.

Durante este tempo de pandemia, não foram poucas as vezes que usei a minha impressora como a melhor aliada para preencher os muitos momentos de confinamento que nos foram impostos. Em vez de gastar o tempo a ver televisão ou a fazer compras em centros comerciais virtuais, preferi dar vida ao meu arquivo fotográfico fazendo coleções e imprimindo as fotografias que mereciam sair do disco rígido.

Transformar a nossa casa numa galeria.

Aqui em casa, aproveitámos estes tempos para criar uma galeria de arte que é renovada de tempos a tempos com várias exposições. Isso faz com que tenhamos a oportunidade de apreciar o nosso trabalho com maior frequência, mesmo quando estamos a embrenhados nas rotinas do dia-a-dia. Permite mostrarmos, com orgulho, imagens às quais dedicamos tanto esforço na sua produção.

Aumentar as competências enquanto fotógrafo

Imprimir em casa é um ofício que requer um caminho de aprendizagem, à semelhança de outras competências ligadas à fotografia. Quem nunca ouviu falar de calibradores, perfis ICC, PPIs e DPIs, D-Max, entre outros termos, que atire a primeira pedra! Mas, na realidade, imprimir, com bons resultados, é cada vez mais simples. Para além disso, com a experiência, passamos a perceber que um ecrã retina retro-iluminado e uma folha de papel não são exatamente a mesma coisa. Uma imagem em papel não tem de ser a mesma coisa que uma imagem mostrada no ecrã de um computador: na maior parte das vezes é melhor! E melhor por ser mais orgânica, mais natural, mais humana. O Ansel Adams dizia que “o negativo era a pauta, a sua impressão o concerto” e eu gosto de olhar para as impressões como uma boa interpretação de uma sinfonia de Mozart. A música é intrinsecamente humana, mas a sua interpretação deve exaltar essa característica de forma transcendental. E o mesmo se aplica a uma boa impressão.

Ao imprimirmos as nossas fotografias estamos a materializá-las, a colocá-las à nossa frente. Ao efectivar uma imagem em papel estamos a elevar o seu espírito e a fazer com que perdure. Esta materialização dá-nos paz e tempo para a contemplarmos. E nesta contemplação são várias vezes que descobrimos nas nossas imagens aspectos que no ecrã nunca transpareceram. A maior parte deles bons, esperamos nós, mas muitas vezes também menos bons. É incrível como uma impressão nos permite ver melhor as coisas que não deviam estar na fotografia. E isso dá-nos a oportunidade de as reprocessar, de as melhorar e de as reimprimir. E neste processo vamos conseguindo ver melhor, com mais atenção, inclusive quando estamos por detrás da câmara.

Imprimir em casa permite-nos perceber melhor como funciona a cor nas nossas imagens, o que é importante num preto e branco, como a luz é tão importante numa composição e que elementos têm real predominância numa imagem. Olhar para uma impressão, por mais incrível que pareça, é realmente diferente de olhar uma fotografia no ecrã de computador. E o mais interessante de tudo isto é que esta aprendizagem se transporta do papel para o digital, alimentado-o. Como um ciclo sem fim, como toda a aprendizagem deve ser.

A maior parte de nós tem câmaras sofisticadas, capazes de produzir fotografias através de sensores que vão bem para além dos 20 megapixels. E o que fazemos com tanta resolução? Publicamos no instagram ou noutra rede social, diminuindo o alcance material e imaterial que as nossas imagens podem e devem ter.

O poder da escolha

Outras das grandes vantagens de imprimir em casa é o grau de escolha e flexibilidade que se consegue. Em nenhum laboratório (ou quase nenhum) vão ter acesso à variedade de papel que se consegue ter em casa. Uma coisa que costumo fazer é comprar os “sample packs” das várias marcas para depois perceber qual o papel que gosto mais (fica prometido um artigo sobre os meus papéis favoritos para outro dia) ou que melhor se adequa a uma determinada imagem. Num laboratório teremos acesso a 4 ou 5 tipos de papel, pois, para controlarem os custos, precisam de apostar em compras de larga escala. Para terem disponíveis papéis específicos para um determinado cliente as vantagens da economia de escala desapareceriam.

Para além da escolha do papel, tem-se acesso a vários formatos de impressão (dentro das capacidades da impressora) e a corrigir, de forma imediata, qualquer falha que tenha ocorrido. Este grau de controlo sobre a impressão é muito difícil de conseguir num laboratório com o qual não se trabalha há muito tempo ou onde não há impressores em quem possamos confiar. São raros os laboratórios que nos garantam que a fotografia é retocada ou ajustada se necessário. Normalmente esse trabalho é sempre um extra e a maior parte deles, por questões práticas, imprime apenas aquilo que enviamos sem tocar nas imagens. E isso, por vezes, não é a melhor solução.

Em casa, temos controlo sobre todos os passos do processo. Esta é, talvez, a razão mais antiga pela qual decidi imprimir em casa: ter a certeza que as impressões saem como eu quero.

Papel Epson Textured Cotton, um dos muitos que temos à nossa disposição quando imprimimos em casa.

No final do ano passado, decidi começar a vender impressões. Após a forma como o meu livro foi recebido, senti que as pessoas dão importância à fotografia em papel e à forma como um determinado autor sente que é a melhor forma de mostrar a sua visão. Embora ainda exista um longo caminho a percorrer neste sentido, pois em Portugal compram-se poucas impressões, sinto que o facto de poder imprimir em casa é também uma mais valia nesta oferta. Primeiro, porque me permite participar ativamente em todo o processo, oferecendo uma experiência completa da captura à impressão em formatos 45x30cm, preparados ao ínfimo pormenor de forma artesanal, com carinho, emoção e pensando no momento em que alguém que gosta da nossa fotografia abre a embalagem e contempla uma impressão nossa. Em segundo, porque temos ferramentas para exigir mais do laboratório com quem trabalhamos nos formatos que a nossa impressora não é capaz. Desta forma, esta parceria corre sempre melhor, em prol da nossa fotografia e da satisfação dos nossos “clientes”.

Uma amiga para a vida

Se um tripé representa um dos maiores garantes da nitidez das nossas imagens, uma impressora contribui, de forma decisiva, para a maturidade da nossa fotografia. Esta maturidade nem sempre é quantificável em termos técnicos. Na maior parte das vezes é-o em termos emotivos, culturais ou de cidadania visual. Uma impressora, que em termos financeiros representa um investimento semelhante a uma objetiva, um bom tripé ou um bom ecrã (para mencionar apenas alguns equipamentos fundamentais à produção de imagens digitais), oferece-nos uma recompensa à qual nem sempre se dá o devido valor, em especial por quem raramente imprime.

Não há nada de mais gratificante do que ver uma fotografia nossa a emergir do tabuleiro da impressora. É a manifestação física da nossa criatividade, do trabalho que colocamos na captação e produção de uma determinada fotografia. E este processo, depois de dominado, torna-se viciante, permitindo-nos tirar da fotografia aquilo que ela tem de melhor: a sua capacidade de nos surpreender, de fazer de nós melhores pessoas através da arte e da beleza que transportamos dentro de nós. Estou pronto para os próximos anos ao lado da minha nova Epson Surecolor P900.

Clique aqui para ver vídeo de apresentação da Epson Surecolor P900 no meu canal de youtube.

2 Comentários

  •    Responder

    Li o texto e no geral inteiramente de acordo com o que descreves. Realmente a emoção ao ver um trabalho desde a captura até à impressão é um sentir que o trabalho foi completo.

  •    Responder

    Excelente artigo, como sempre.

    Reflete muito bem o prazer que é ter uma fotografia bem impressa e com um bom papel a sair da impressora. Quando e como queremos.

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